Importa é com quem

Importa é com quem
Importa é com quem Estávamos empolgados por fazer um programa diferente. Em vez do mesmo almoço de domingo de sempre, íamos pegar o metrô, procurar o parque da Aclimação e curtir uma feira cultural cheia de coisas legais e gostosas que vimos no Instagram. Verdade que eu era o mais empolgado, ela comprou a minha ideia pra me agradar e me acompanhar. Imagina um casal que convive há 30 anos – 25 de casado. Pequenas aventuras vão rareando com o tempo. Uma hora é o filho, outra é o cachorro, a vó, a mãe, o cansaço, a preguiça, e quando viu já foi. Descemos na estação Ana Rosa, atravessamos a larga Vergueiro (paciência no farol) e pegamos a Machado de Assis. Do lado errado, claro, mas foi só atravessar de volta (paciência no farol) e descer a Machado de Assis do lado certo. Só descer, pertinho. Não chegava nunca, paisagem cada vez mais urbana, nenhum sinal de parque, nada verde. Pouca gente na rua. Achamos uma e perguntamos, caminho certo e dá-lhe pernas. Nem foi tanto, uns vinte e tantos minutos, mas num lugar que não se conhece parece o dobro. A boa disposição estava em dia. E aproveitamos para atualizar vários assuntos, que na correria do dia a dia, ficam pra trás. Entramos no parque pelo portão indicado na divulgação da feira, Portão 3. Belo parque por sinal e, logo de cara, fizemos uma parada no banheiro – já necessário. “Quem sair primeiro espera o outro aqui”. E andamos pra procurar a tal feira. Nenhuma indicação, plaquinha, sulfite impresso. Fomos caminhando, conversando. Será que nos distraímos e passamos por ela sem notar? Perguntamos, ninguém sabia. Parque bem grande e vasculhamos todos os cantos. Nada. Achamos a Administração. “Não tem nenhuma feira aqui”. Mostramos a divulgação. “Ah, é uma que é feita fora do parque, lá fora, na rua”. Bela caminhada de volta, saímos e nada, nem fumaça. Portão 3, rua vazia. Enquanto isso no Instagram, várias fotos, vídeos e “venha que já começamos”. Considerei estarmos num universo paralelo, coisas acontecendo ao mesmo tempo, no mesmo lugar, e nós no universo errado. Me pareceu interessante e divertido, mas não para ela, que já havia andado quase duas horas à toa. A solução era ir embora, subir a ladeira de volta ao metrô e pensar num lugar pra almoçar. Ainda havia um pouco de força nas pernas, mesmo assim consultamos o valor do Uber. Razoável. Passamos por um carro de fiscalização de zona azul e, antes de desistir, perguntei sobre “uma feira cultural por aqui”. Cara de “o que esses malucos tão falando?”. O rapaz pensou um pouco e teve uma luz: “Só se for umas barraquinhas que tem mais pra lá, de artesanato, né? Só seguir reto”. Desistimos de desistir. E dá-lhe mais uma caminhada. Finalmente achamos, e a empolgação voltou. Por pouco tempo. Com todo o respeito, mas o que o Instagram mostrava parecia um festival de diversidade, movimentado e repleto de surpresas culturais e gastronômicas. Trombamos com aqueles memes Expectativa versus Realidade. Talvez uns trinta metros de barracas, até aí tudo bem, mas sem nada de encher os olhos. Poderíamos resumir numa palavra: chocho. Nem a fome – que já era uma realidade em nosso universo – foi capaz de nos segurar ali. Subimos de volta, conversando e procurando um lugar simpático para almoçar. Nada aqui, nada ali. Chegamos no metrô. Retornamos para nossa cidade e achamos aberto um restaurante que conhecíamos muito bem. Devoramos nosso cansaço e frustração com risos e pratos gigantes. – Obrigada por me levar pra conhecer o banheiro do Parque da Aclimação. Adorei – ela me zoou. É, enfim, não foi o lugar, não foi o programa. Na verdade, foi a companhia. O tempo que tanto queríamos pra falar e rir de tudo. O que importa, quase sempre, é com quem. Nelson Albuquerque Jr. Divulgação Nelson [1] é escritor e jornalista. Pós-graduado em Língua e Literatura, publicou seu primeiro livro em 2021, o romance O Resto de Raen. Em 2025, lança outro romance, Mestre Mikan e a aldeia desaparecida (Mésmer Edições). Coordenou ações de literatura na Secretaria de Cultura de São Caetano do Sul. É instrutor de oficinas de escrita desde 2014 e cocriador dos projetos independentes Laboratório de Jovens Escritores e Fazer Criativo, ambos voltados à leitura e escrita literária. Seus textos também podem ser lidos no portal ABCdoABC. [2] [1] https://www.instagram.com/nelsonajr [2] https://abcdoabc.com.br/noticia/caderno/palavralem/