
O Brasil encerra 2025 com um marco histórico no mercado de trabalho. A taxa de desemprego atingiu 5,6%, o menor índice da série histórica do IBGE [1]. O dado, que à primeira vista indica um cenário positivo, esconde um desafio estrutural que deve se intensificar em 2026, a escassez de mão de obra qualificada em setores estratégicos da economia.
Com a renda média ultrapassando R$ 3.500 e o poder de barganha dos trabalhadores em alta, empresas enfrentam dificuldades crescentes para contratar, manter e desenvolver talentos. O fenômeno já é tratado por especialistas como uma transição para o chamado “pleno emprego”, cenário no qual há mais vagas do que profissionais preparados para ocupá-las.
Segundo Virgilio Marques dos Santos, PhD pela Unicamp e sócio da consultoria FM2S, [2] o país vive uma crise silenciosa de competências. Para ele, o problema não é falta de pessoas, mas de profissionais com formação técnica e habilidades comportamentais alinhadas às novas exigências do mercado.
Setores que puxam a demanda por empregos e profissionais
(Imagem: Freepik)
A tendência para 2026 aponta uma mudança relevante no eixo das contratações. Após anos de protagonismo do setor de tecnologia, a demanda deve se concentrar no que especialistas chamam de “Brasil que produz”.
A construção civil projeta crescimento de 2,7% no próximo ano, acompanhada por investimentos em infraestrutura, energia, logística e agronegócio. Esses segmentos ampliam a busca por engenheiros, técnicos de automação, mestres de obras, eletricistas especializados e profissionais com domínio operacional e capacidade de gestão.
Esse movimento pressiona empresas que já enfrentam dificuldade para formar equipes completas, elevando salários e ampliando a disputa por profissionais experientes.
O alto custo da rotatividade e a lógica da retenção
Com o mercado aquecido, o custo do turnover se tornou um dos principais riscos corporativos. Estudos indicam que a reposição de um talento pode custar entre nove e doze salários do próprio profissional, considerando recrutamento, adaptação, perda de produtividade e impacto nos times.
Diante desse cenário, cresce a adoção do conceito de Engenharia de Gente, defendido por Virgilio Marques dos Santos. A abordagem propõe tratar a gestão de pessoas com o mesmo rigor técnico aplicado à engenharia de processos, priorizando retenção em vez de substituição constante.
Entre os pilares dessa estratégia estão a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, políticas claras de desenvolvimento e incentivos que vão além da remuneração direta. A permanência do colaborador passa a ser vista como um ativo estratégico.
O novo perfil profissional valorizado em 2026
(Imagem: Freepik)
O mercado de trabalho também elevou sua régua de exigência. O profissional mais disputado não é mais o especialista restrito a uma única função, mas o generalista estratégico, capaz de transitar entre áreas e resolver problemas complexos.
Perfis que combinam engenharia e finanças, gestão e análise de dados ou técnica e liderança ganham vantagem competitiva. Além disso, competências comportamentais como autonomia, comunicação clara, pensamento crítico e capacidade de aprendizado rápido se tornaram diferenciais decisivos.
Para especialistas, habilidades técnicas podem ser treinadas, mas soft skills são mais difíceis de desenvolver, o que muda a lógica do recrutamento. Cada vez mais, empresas abandonam a busca pelo “currículo perfeito” e passam a contratar profissionais alinhados à cultura organizacional, complementando lacunas técnicas internamente.
Um desafio estrutural para o crescimento econômico
O diagnóstico é direto, o sucesso das empresas brasileiras em 2026 dependerá menos da capacidade de contratar e mais da habilidade de manter, desenvolver e engajar seus profissionais. Em um país de pleno emprego, a gestão de pessoas deixa de ser apenas uma área de suporte e passa a ocupar posição central na estratégia de negócios.
A escassez de talentos, se não enfrentada com políticas estruturadas, pode se tornar um freio ao crescimento econômico, mesmo em um cenário de indicadores positivos. Para o mercado, o desafio já não é gerar vagas, mas garantir pessoas preparadas para sustentá-las.
[1] https://abcdoabc.com.br/desemprego-no-brasil-2/
[2] https://www.fm2s.com.br/