
A tão aguardada aprovação do acordo com o Mercosul [1] pela União Europeia [2] marca o fim de uma espera de 26 anos. Confirmada nesta sexta-feira (9), a decisão abre caminho para a assinatura oficial no Paraguai e consolida a maior área de livre comércio do mundo. O tratado conecta o Brasil a um mercado consumidor de 451 milhões de pessoas, mas traz consigo obrigações técnicas rigorosas.
Embora o agronegócio seja o beneficiário mais evidente, o impacto real atingirá a estrutura interna das organizações. Jhonny Martins, vice-presidente do SERAC, alerta que a integração com o bloco europeu vai expor as empresas a novos padrões de exigência. Segundo o especialista, não basta ter o produto; é preciso adequar controles contábeis e fiscais.
O fluxo comercial atual entre a Europa e o Mercosul já movimenta cerca de € 110 bilhões anuais. Com a derrubada de tarifas, a competitividade dos produtos manufaturados deve crescer, desde que as companhias brasileiras superem os gargalos de gestão.
Mercosul exige nova postura contábil e gestão
A euforia diplomática esconde um desafio operacional silencioso. Para Martins, a profissionalização da gestão financeira deixa de ser diferencial e vira pré-requisito de sobrevivência dentro do novo cenário do Mercosul. O mercado europeu demanda rastreabilidade total de custos e uma clareza na formação de preços que muitas empresas nacionais ainda não possuem.
A lógica contábil brasileira, historicamente voltada apenas para o cumprimento de obrigações fiscais (compliance tributário), precisará evoluir. O acordo prevê a adoção de normas internacionais, como o IFRS, além de rígidos controles de governança e sustentabilidade. Quem já opera com relatórios estruturados e planejamento tributário eficiente terá vantagem competitiva imediata.
Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta que a consolidação deste pacto com o Mercosul pode elevar o PIB brasileiro em 0,4%. No entanto, esses ganhos ficarão concentrados nas empresas que conseguirem provar sua eficiência técnica e regulatória.
Como preparar sua empresa para o acordo
Para navegar nesta nova fase, a organização interna será o fiel da balança. Especialistas indicam que as barreiras não tarifárias — como falhas de conformidade — podem representar até 15% do custo extra na exportação.
Martins destaca três frentes essenciais para quem deseja operar no bloco:
Revisão de Custos: A precificação para o mercado europeu exige margens calculadas com precisão cirúrgica.
Compliance Robusto: Investir na conformidade contábil reduz drasticamente o risco de autuações e travas comerciais.
Processos Internacionais: É vital estruturar contratos, operações de câmbio e planejamento financeiro integrados à realidade externa.
O fim de um longo impasse diplomático
A demora de duas décadas nas negociações do Mercosul reflete o protecionismo europeu. Países como França e Irlanda lideraram a oposição, temendo a concorrência dos produtos latino-americanos. Mesmo com críticas recentes do presidente Emmanuel Macron, a liberação de € 45 bilhões em subsídios para agricultores europeus foi decisiva para destravar o apoio da Itália e garantir o aval da Comissão Europeia.
Agora, a contabilidade assume um papel estratégico. O tratado não serve como atalho para o sucesso, mas premia a organização. Empresas que decidirem se estruturar agora colherão os frutos dessa abertura histórica promovida pelo Mercosul.
[1] https://abcdoabc.com.br/analise-sobre-acordo-entre-mercosul-uniao-europeia/
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Europeia