Documentário revela trabalho infantil nas categorias de base

Documentário revela trabalho infantil nas categorias de base
Documentário revela trabalho infantil nas categorias de base Enquanto o futebol brasileiro projeta ao mundo a imagem de celeiro de talentos e celebra seus chamados “garotos de ouro”, uma realidade menos visível segue à margem do debate público: o trabalho infantil no futebol, praticado de forma velada nas categorias de base. Esse é o foco do novo episódio da série Ponto a Ponto, do PELEJA [1], que lança luz sobre um sistema sustentado pela desigualdade social, pela informalidade e por interesses econômicos. O documentário investiga como crianças, muitas vezes antes dos 12 anos, são retiradas de suas casas, submetidas a rotinas rígidas, cobranças de desempenho e acordos firmados por familiares em situação de vulnerabilidade. Sob o discurso da oportunidade, jovens atletas passam a ser tratados como ativos financeiros, muito antes de qualquer vínculo profissional formal. Crianças tratadas como mercadoria Divulgação Freepik Ao longo do episódio, o trabalho infantil no futebol é analisado a partir da lógica que transforma a formação esportiva em um processo de alto rendimento precoce. A produção detalha como clubes adotam manobras institucionais, acordos informais e mecanismos jurídicos que transferem riscos às famílias, enquanto preservam seus próprios interesses econômicos. “Jogar profissionalmente é um sonho que se torna um pesadelo para a maioria das crianças e adolescentes que dedicam a vida a esse processo”, afirma Vitor Daniel, roteirista do PELEJA. O documentário reconstrói como a antecipação da lógica profissional impacta diretamente o cotidiano desses jovens, impondo expectativas incompatíveis com a infância e gerando efeitos sociais e psicológicos duradouros. Um pacto de silêncio no futebol brasileiro Imagem gerada por IA (Gemini) Segundo Vitor Daniel, há uma normalização do trabalho infantil [2] no futebol que se sustenta em um pacto coletivo de silêncio. “Existe um pacto de naturalização do absurdo, atravessado pela desigualdade e amparado por clubes, empresários e pela própria justiça”, afirma. A obra questiona por que práticas que seriam amplamente condenadas em outros setores da sociedade seguem sendo aceitas no futebol, impulsionadas pela raridade dos casos de sucesso e pela promessa de ascensão social. Formação esportiva ou exploração? O episódio se debruça sobre a fronteira difusa entre formação esportiva e exploração do trabalho infantil. Mostra como o futebol se consolidou como um ambiente de exceção, onde crianças deixam de ser apenas atletas em formação e passam a ser vistas como investimentos de alto risco, inseridas em disputas econômicas e jurídicas antes mesmo de poderem assinar um contrato. “Na fantasia de salvar a família e mudar de realidade, a maioria esmagadora fica pelo caminho. Mesmo os que chegam não escapam dos efeitos colaterais de serem tratados como produto desde cedo”, destaca Vitor Daniel. Futebol como indústria de ativos Imagem gerada por IA (Gemini) O documentário relaciona o trabalho infantil no futebol à transformação do esporte em uma indústria global orientada por projeções financeiras, direitos econômicos e circulação internacional de talentos cada vez mais jovens. “Essa é uma questão urgente. Nenhuma criança vista como ativo financeiro joga futebol para se divertir. O trabalho infantil é mascarado, e tirar essas máscaras é parte central da proposta do episódio”, pontua o roteirista. Sobre o Ponto a Ponto Reprodução O Ponto a Ponto é uma série de documentários do PELEJA dedicada a analisar, com profundidade jornalística, as tensões estruturais do futebol. O projeto aborda temas como economia, política, relações de poder e bastidores institucionais que moldam o esporte dentro e fora de campo. “Nesse mar de notícias sobre cifras milionárias e disputas por direitos econômicos de crianças e adolescentes, percebemos que muitas perguntas estavam ficando pelo caminho. O papel do Ponto a Ponto é mergulhar nessas contradições”, afirma Pedro Brienza, Head de Conteúdo do PELEJA. O documentário já está disponível no canal do PELEJA no YouTube e nas redes sociais do veículo. [1] https://peleja.com.br/ [2] https://abcdoabc.com.br/trabalho-escravo-no-brasil/