
A recente intervenção militar dos EUA transformou a crise na Venezuela [1] em um fator central de instabilidade no cenário econômico internacional. O impacto imediato transcende o confronto físico, refletindo-se principalmente no aumento da incerteza institucional e na volatilidade dos mercados financeiros.
A avaliação é de Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP [2]. Segundo o especialista, o choque atual não deriva de uma ruptura física na oferta de petróleo. O mercado reage à sinalização de risco político na América Latina e à necessidade de reavaliar contratos e sanções.
O investidor observa a crise na Venezuela menos como uma guerra convencional e mais como um evento de alta incerteza. Esse cenário possui potencial real para reorganizar fluxos comerciais e energéticos nos próximos meses.
Reação do petróleo e paradoxo inflacionário
Essa leitura justifica o comportamento contido das commodities logo após a escalada do conflito. No dia 6 de janeiro de 2026, os preços operavam com leve queda:
Brent: US$ 61,48 (-0,5%)
WTI: US$ 58,00 (-0,6%)
O mercado prioriza a dinâmica de manchetes e sanções em detrimento de um colapso imediato da oferta. No entanto, a crise na Venezuela cria um cenário paradoxal do ponto de vista inflacionário.
Embora detenha as maiores reservas do mundo, o país mantém uma produção baixa, entre 1,0 e 1,1 milhão de barris por dia. O impacto na inflação global dependerá do fluxo exportável no curto prazo e das expectativas futuras, não apenas do tamanho das reservas.
Canais menos visíveis podem pressionar preços mesmo sem disparada do Brent. A inflação tende a reagir via spreads de refino, seguros marítimos e custos de financiamento de cargas. Isso afeta rapidamente o transporte e o preço dos alimentos globalmente.
Crise na Venezuela e os impactos no Brasil
Para a economia brasileira, os efeitos se manifestam prioritariamente pelos canais financeiros. Tensões geopolíticas aumentam a aversão ao risco, fortalecendo o dólar e elevando a seletividade sobre mercados emergentes.
Esse contexto pressiona o câmbio e as curvas de juros. O resultado é o encarecimento do custo de capital e a redução no ritmo de crescimento. A pressão inflacionária no Brasil decorre mais dessas expectativas cambiais do que de um choque direto em energia.
Setorialmente, a crise na Venezuela provoca uma redistribuição clara de ganhos e perdas:
Ganhadores: Exportadores de commodities não energéticas (mineração, papel e celulose, agronegócio) ganham competitividade com o real depreciado.
Perdedores: Varejo, bens duráveis e construção civil sofrem com a piora da confiança e custo financeiro.
Risco Elevado: Setores de logística e companhias aéreas ficam expostos à deterioração simultânea do câmbio e combustíveis.
O fluxo de investimentos estrangeiros também sofre alterações. Ocorre uma dispersão de capital, onde recursos saem de emergentes em busca de liquidez e segurança. Para o Brasil, isso significa um aumento no custo de credibilidade.
Cenários futuros e o eixo EUA-China
No médio prazo, o mercado precifica uma possível transição política. Estimativas indicam que, havendo estabilidade, a produção venezuelana poderia crescer 500 mil barris por dia em dois anos. Essa expectativa de oferta futura ajuda a conter os preços atuais.
Contudo, qualquer redesenho que desloque barris do circuito chinês para o norte-americano alterará prêmios regionais e margens de lucro. O desfecho econômico dependerá diretamente de como evoluirá a crise na Venezuela.
[1] https://abcdoabc.com.br/maduro-alega-sequestro-se-declara-inocente-eua/
[2] https://www.fecap.br