Como uso de animais vai ajudar em pesquisas de vírus letais no 1º laboratório de biossegurança máxima no Brasil

Como uso de animais vai ajudar em pesquisas de vírus letais no 1º laboratório de biossegurança máxima no Brasil

Como uso de animais vai ajudar em pesquisas de vírus letais no Orion, em Campinas O uso de animais ainda é necessário em pesquisas científicas específicas, nas quais não há uma alternativa viável, como as que buscam entender como doenças afetam órgãos ou desenvolver novos medicamentos e vacinas. Esse será o caso do Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível máximo de biossegurança para estudar vírus e bactérias letais e combater futuras pandemias. 🔎 O Orion recebe a inscrição de laboratório NB4, que significa o nível de biossegurança máximo exigido para laboratórios que trabalham com agentes perigosos, ou seja, com alto risco de infecções que podem ser fatais e com potencial elevado de transmissão por aerossóis. A unidade está em construção em Campinas (SP), no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e a previsão é que fique pronto em 2027. A estrutura, que será usada para estudar vírus como o Sabiá, será conectado ao Sirius, o superlaboratório acelerador de partículas considerado a maior estrutura científica do país. O g1 conversou com pesquisadores que atuam no projeto da estrutura para saber como o Orion se prepara para fazer o manejo dos animais e como serão usados os feixes de luz síncrotron do Sirius em tomografias de alta resolução - confira abaixo. "O Orion vai permitir que a gente acompanhe a evolução de uma infecção desde a partícula viral até o organismo vivo. Estar preparado significa entender esses agentes antes que causem surtos. Isso é fundamental para propor soluções contra doenças graves”, afirma Rafael Elias Marques, pesquisador líder da virologia do CNPEM. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Quando o uso de animais é permitido? Para qualquer pesquisa ou atividade de ensino que envolva animais, é obrigatório seguir regras que garantam respeito e cuidado. O uso só pode ocorrer com autorização da Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua), que avalia se o projeto é realmente necessário e se cumpre normas de bem-estar. O guia do Ceua estabelece princípios conhecidos como “3Rs”: Reduzir: usar o menor número possível de animais, sem comprometer os resultados. Substituir: sempre que houver métodos alternativos (como modelos computacionais ou células), eles devem ser priorizados. Refinar: melhorar técnicas para causar o mínimo de dor, estresse ou sofrimento. Além disso, os animais devem ter ambiente adequado, alimentação correta e cuidados veterinários. É obrigatório usar anestesia e analgesia em procedimentos dolorosos e, quando não houver alternativa, a eutanásia deve ser feita de forma humanitária, seguindo protocolos. O uso de animais só é permitido quando: Não existe método substitutivo capaz de responder à pergunta científica. A pesquisa tem relevância comprovada para saúde, ciência ou ensino. O projeto foi aprovado pela Ceua e segue a legislação brasileira. Exemplos em que o uso de animais ainda é necessário incluem o desenvolvimento de vacinas e medicamentos, estudos sobre funcionamento de órgãos e sistemas e o treinamento em cursos de medicina veterinária, quando não há alternativa. Estrutura desenvolvida no Orion Projeto mostra como será fachada do Orion após término da obra, em Campinas (SP). CNPEM A médica veterinária Tatiana Kugelmeier, assessora científica do Orion para medicina comparada, explica que o complexo foi desenhado desde a recepção dos animais: o projeto conta com salas específicas de chegada, áreas para avaliação clínica e monitoramento, e definição de equipamentos adequados a cada espaço. Ela ressalta que todos os fluxos foram estruturados para preservar o bem‑estar, em conformidade com legislações nacionais e referências internacionais. "Principalmente nos últimos anos, temos buscado cada vez mais técnicas não invasivas de monitoramento desses animais, ou minimamente invasivas, que proporcionem respostas com mais eficácia e a melhoria do bem-estar desses animais", afirma. Segundo Kugelmeier, o manejo se apoia nas técnicas não invasivas ou minimamente invasivas de monitoramento associadas ao enriquecimento ambiental. Na prática, isso significa buscar dados de melhor qualidade com menos intervenção, e ampliar estímulos e conforto dos animais. Luz síncrotron nos testes Segundo Harry Westfahl Jr., diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron do CNPEM, o uso dos feixes de luz síncrotron vai permitir que sejam feitas tomografias com baixa dose de radiação e alta resolução. Com isso, será possível acompanhar um mesmo animal ao longo do tempo, reduzindo a necessidade de sacrificar vários indivíduos em protocolos tradicionais. Para as amostras de célula e tecido infectados, o uso de criogenia com nitrogênio líquido, a cerca de −200 °C, protege estruturas biológicas e garante a inatividade dos vírus e bactérias durante o experimento. Para realizar as tomografias de raio-X em diferentes escalas, o Orion vai conectar três linhas de luz síncrotron do acelerador Sirius: Linha Sibipiruna Focada em células, a linha usa raios-X de baixa energia (chamados raios-X "moles") para obter alta resolução em uma escada nanométrica. Permite visualizar estruturas internas, como organelas e “fábricas virais” dentro da célula. Linha Timbó Voltada para tecidos, miniórgãos e também para insetos vetores (como mosquitos). Opera com energia intermediária, ideal para análises tridimensionais sem que os cientistas precisem fazer cortes físicos das amostras. Linha Hibisco Desenvolvida para acompanhar pequenos animais vivos. Seu grande diferencial será a capacidade de fazer imagens cerca de 100 vezes mais detalhada que a tomografia médica convencional, utilizando uma dose baixa de radiação. Tipos de estudos que poderão ser realizados no Orion, em Campinas (SP). Reprodução CNPEM Essa arquitetura vai permitir que cientistas vejam o que acontece desde a partícula viral e suas “fábricas” dentro da célula, passando pelos tecidos, até o organismo. Operação, engenharia e rotas seguras Kugelmeier aponta que o desafio central no desenvolvimento do projeto é o domínio das rotinas em ambientes de máxima contenção. Isso envolve rotas de circulação, barreiras físicas e procedimentos para manter os microorganismos confinados e a equipe protegida. "Hoje, o que a gente busca é conhecer mais, nos capacitar mais, trocar mais com pessoas de outros centros e trazer as lições aprendidas para que a gente possa, no Orion, implantar o melhor de cada local que a gente visitou, com quem a gente interagiu", avalia. O diretor do laboratório detalha que, por questões de segurança e manutenção, a maior parte dos equipamentos de síncrotron fica fora do ambiente NB4, e foi preciso testar os materiais usados nos equipamentos para suportar, da melhor forma, os agentes usados na limpeza. "Toda vez que é feito um experimento, tem que haver um processo de desinfecção do ambiente, e esse processo utiliza agentes bastante agressivos", explica. Além disso, segundo Westfahl Jr., o acesso ao ambiente de biossegurança máxima é muito difícil. "Fazer uma manutenção do equipamento dentro desse ambiente seria quase impossível", afirma. Enquanto as obras do Orion continuam, Marques reforça que a equipe busca avanços nos laboratórios fora da máxima contenção - com virologia, biologia estrutural e molecular - para chegar ao NB4 com hipóteses testáveis e ferramentas preparadas. Como será o Orion? Veja local onde Orion está sendo construído e projeto de como será a estrutura ligada ao Sirius após conclusão da obra, em Campinas (SP). Initial plugin text 🧪 O complexo laboratorial de máxima contenção biológica representa um avanço para o Brasil, que permitirá pesquisas com patógenos capazes de causar doenças graves e com alto grau de transmissibilidade (das chamadas classes 3 e 4) - estrutura essa que não existe até hoje em toda a América Latina. 💉Possuir um laboratório de biossegurança máxima (NB4) oferece condições ao país de monitorar, isolar e pesquisar os agentes biológicos para desenvolver métodos de diagnóstico, vacinas e tratamentos. 🧫No caso do Brasil, mais do que armazenar e manipular essas amostras biológicas, o laboratório de biossegurança máxima terá acesso exclusivo a três linhas de luz (estações de pesquisa) do Sirius, o que não existe em nenhum outro lugar do mundo. 🌟 É por conta dessa conexão com o Sirius que vem o nome do projeto, Orion, em homenagem à constelação que possui três estrelas apontadas para a estrela que batizou o acelerador de partículas brasileiro. 👩‍🔬 O projeto prevê a capacitação de cientistas brasileiros para lidar com agentes infecciosos desses tipos. Essa formação já integra o custo do projeto, atualizado para R$ 1,5 bilhão. 🏗 O complexo laboratorial terá cerca de 29 mil metros quadrados, e sua construção está prevista para ficar pronta ao final de 2027. Após essa etapa, o Orion passará pelo chamado comissionamento técnico e científico, e também por certificações internacionais de segurança, para que possa entrar em operação regular. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas