
Bom dia, boa tarde ou boa noite, dependendo de que fuso horário você acordou hoje com o barulho de helicóptero na cabeça. O Café com Cinismo abre esta edição especial com um clássico do cardápio internacional: intervenção com justificativa moral, acompanhamento de bravata e sobremesa de petróleo. O café está forte, o cinismo vem sem filtro e a notícia chega quente, do jeito que o império gosta: “capturamos, administramos, decidimos”.
Então, ao menos que você tenha sido abduzido por alienígenas nos últimos dias, provavelmente já sabe que a Venezuela amanheceu como se alguém tivesse trocado o despertador por uma coletiva em Mar-a-Lago. Trump falou, o mundo ouviu, o direito internacional pigarreou e voltou a sentar assustado. A narrativa veio pronta, embrulhada para presente, com frase curta, imagem calculada e a promessa vaga de “mais detalhes em breve” — aquele clássico da política contemporânea que significa tudo e não explica nada.
Nesta edição especial, a gente vai fazer o que não coube no post nem na coletiva: separar espetáculo de procedimento, bravata de precedente e moralismo de contrato. Quando a política vira show business, o café precisa ser amargo — açúcar demais só ajuda a engolir o espetáculo. E convenhamos: ontem, hoje e pelo visto amanhã, o mundo anda acordando precisando de duas ou três xícaras só pra reconhecer a realidade.
Então nem adianta fingir surpresa. O fim de semana foi aquele em que o mundo resolveu bater na mesma tecla até ela afundar. Você abriu o celular pra ver o clima e deu de cara com a Venezuela. Foi buscar distração e apareceu Maduro. Tentou escapar pela conversa alheia e tropeçou em coletiva, ameaça e promessa vaga de “mais detalhes”. E, como não podia faltar, lá estava Trump, surgindo como apresentador de um espetáculo que ninguém pediu. Não teve outro assunto, porque quando um país vira palco, o resto da pauta se encolhe.
E desse modo é que a gente coloca o pires sujo do Café com Cinismo, nesse clima meio sala de estar, meio sala de crise, em que a política entra sem pedir licença e a gente fica ali, com a xícara na mão, tentando decidir meio trêmulo: se chora ou ri de nervoso, se anota ou apenas balança a cabeça. A dica é simples — por gentileza, servir sem açúcar, nosso café já nasceu amargo e não precisa de disfarce. Então vem comigo, pois quando a política resolve virar espetáculo, o mínimo que a gente pode fazer além de espernear é assistir tudo, perplexo, mas bem muito acordado.
MAR-A-LAGO VIRA INTERROGATÓRIO EM INVASÃO DE TRUMP À VENEZUELA
Abertura
Trump apareceu na madrugada com aquele tom de bilhete de porteiro que se acha presidente do prédio: “capturamos, retiramos, mais detalhes em breve”. Só faltou a câmera de segurança em preto e branco e o “assinado: síndico do hemisfério”. E como todo bilhete importante, veio com horário e coletiva em Mar-a-Lago, o lugar onde a geopolítica costuma entrar de chinelo e sair com recibo de champanhe. Assim acordou o continente, com o rádio chiando e a realidade pedindo recibo, como se alguém tivesse trocado a cafeteira pela sirene. Sobre o ataque a Venezuela [1], a posição do Brasil é aquela diplomacia de luva branca: não faz defesa de Maduro, mas faz questão de defender a soberania da Venezuela, porque país não é o inquilino da vez.
Desde a última intervenção “com recibo” dos EUA [2] na América Latina, em 1989, quando o Panamá virou cenário e Noriega saiu de cena, Washington nunca largou o hábito de se meter no roteiro alheio, às vezes com discurso de liberdade, muitas vezes com condescendência de quem escolhe o síndico do prédio. A captura de Nicolás Maduro reabriu esse álbum de família que ninguém queria folhear: Panamá, Guatemala, Cuba, Chile e mais meia dúzia de capítulos em que a justificativa oficial era “combater o comunismo”, enquanto a prática real era manter a influência bem engomada, nem que pra isso fosse preciso apertar a mão de ditaduras e chamar de estratégia.
Acontece que, do outro lado do Caribe, o despertador tocou no formato errado: explosões, ruídos de aeronaves, fumaça, blecautes e gente escondida em quarto sem janela, como se a cidade tivesse voltado ao século XX sem pedir licença. Caracas, nesse roteiro, vira cenário de cinema que não respeita classificação indicativa nem o bom senso dos figurantes, que são sempre os mesmos: gente comum tentando adivinhar onde termina o barulho e começa a versão oficial.
E aí entra o detalhe que estraga o café: Maduro “capturado” é frase grande demais pra caber num post, e curta demais pra caber “num” direito internacional. Captura de chefe de Estado não é “delivery premium” - costuma exigir base legal, explicação pública e, no mínimo, a parte chata do Congresso perguntando “quem autorizou o quê”. Só que a parte chata, hoje, acordou mais tarde, porque a manchete veio com pressa e a legalidade veio de carona.
Trump em horário nobre
Trump resolveu governar também pelo álbum de fotos e após a captura, divulgou a imagem de Maduro: vendado, de óculos, moletom da Nike, “aparentemente algemado”, no convés do USS Iwo Jima. É a estética da humilhação como política pública, aquela foto que não quer informar, quer ensinar. Não é prova, é recado. E recado, quando vem com navio de guerra e lente oficial, costuma ser mais alto que qualquer discurso sobre democracia.
Ao mesmo tempo, ele repetiu a frase que virou senha do novo império em cápsulas: “ainda estou decidindo sobre o futuro da Venezuela”. Como se a Venezuela fosse um reality show em que o apresentador elimina participantes no intervalo, e o país inteiro aguardasse o veredito com pipoca e sirene. Caracas, Miranda, Aragua, La Guaira, explosões na madrugada, e a geopolítica tratando o continente como tabuleiro que cabe no bolso.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
Trump ainda contou, com a naturalidade de quem descreve uma maratona na TV, que assistiu “ao vivo” à captura, transmitida pelos agentes em Caracas. “Foi como ver um programa televisivo”, disse – a frase é uma confissão e uma assinatura: a guerra como entretenimento, o poder como audiência, o sofrimento como conteúdo. Assim temosno século XXI o idealizador da transmissão de uma cena de guerra via streaming e claro, Trump demonstrando quem inventou o apresentador do “quadro”.
Teve também o detalhe meteorológico, que é o toque burocrático do absurdo: a operação estava prevista para quatro dias antes, mas foi adiada por causa do clima. Nem o imperialismo escapa da previsão do tempo. E no mesmo pacote ele jogou um bastidor de novela: disse que falou com Maduro uma semana atrás, que o venezuelano teria tentado negociar uma saída pacífica. Dessa forma ele respondeu com a sinceridade seca de quem não negocia, decreta: “eles quiseram negociar no final, mas eu não queria”.
No fim, a foto e a frase se completam: primeiro você expõe o prisioneiro, depois você anuncia que decide o destino do país. A Venezuela vira cenário, Maduro vira troféu e o mundo assiste à política externa em modo espetáculo, com legenda curta e consequências longas.
A Coletiva
A coletiva durou 53 minutos, mas a história, segundo o general, durou 47 segundos. Cronometraram a operação como quem cronometrava gol em final de campeonato, com direito a horário exato: 3h01 em Brasília. E, no meio dessa precisão toda, veio a frase mais imprecisa de todas, dita com a tranquilidade de quem confunde mapa com escritura: os Estados Unidos vão “controlar” a Venezuela por um tempo que ninguém sabe qual é, com uma autoridade que ninguém sabe quem é, para um país que, em tese, já é independente há mais de dois séculos.
Trump, que ontem brincava de anexar o Canadá como “51º estado”, hoje resolveu fazer numerologia de império e sugeriu que a Venezuela vira, pelo menos “por um tempo”, um “50º estado americano”. É um discurso que tira a fantasia do armário e deixa o imperialismo andando de camiseta regata pela sala. Aquele medo clássico da “ameaça comunista” usado como desculpa para tudo, e aquela denúncia antiga do “imperialismo ianque” que a esquerda repete há décadas, se encontraram no mesmo palco, só que desta vez com tradução simultânea e microfone aberto.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
O detalhe mais grave é que a decisão foi unilateral, sem consulta ao Congresso, com a justificativa de que não era “declaração de guerra”, embora tenha toda a cara, o cheiro e o barulho de uma. A lógica vendida foi a prisão de “fugitivos” procurados pela Justiça americana, o casal Maduro, mas o que escorre nas entrelinhas é outra coisa: um país tratado como quintal, uma esfera de influência onde não se admite regime que não esteja alinhado, e uma disposição explícita de governar “junto com alguém” que ninguém conhece, escolhendo chefe como quem escolhe síndico em assembleia fechada.
Rubio apareceu quase decorativo, mas deixou uma pista que assusta: disse que houve contato de Delcy Rodríguez com ele, sugerindo um acerto por dentro, uma colaboração sob pressão, um “não tem alternativa” dito com a serenidade de quem encosta alguém na parede e chama isso de diplomacia. Ao mesmo tempo, Trump mandou recado para a própria oposição venezuelana, insinuando que María Corina não teria condição de governar, nem com Edmundo González, como se o futuro do país fosse um departamento que precisa de aval do gerente.
E, se alguém esperava ouvir “democracia”, “vontade popular” ou “reconstrução institucional”, ficou só com o palavrário que importa no caixa: petróleo, energia, petróleo, petróleo. Trump falou em reembolso pelo que “perdeu” com Maduro, em explorar mais, em vender petróleo venezuelano para outros, e respondeu a China e Rússia no idioma do balcão: se quiserem, a gente produz mais. Do lado brasileiro, a reação descrita é aquela diplomacia de faca e luva: não há razão para defender Maduro, mas há obrigação de defender o direito internacional, porque é a única cerca que impede que a barbárie vire método exportável, com recado direto, inclusive, para outros governos da região.
Manual de Noriega em versão streaming
A cena lembra 1989 do jeito que a memória lembra: com barulho, pressa e uma comparação que volta sozinha, como música ruim em rádio de táxi. A diferença é que, naquela época, a internet não existia pra transformar “informação preliminar” em dogma de torcida em três minutos. Agora, o planeta acompanha em tempo real: “foi isso”, “foi aquilo”, “foi tal força especial”, e o mundo inteiro aprende sigla militar como quem decora ingrediente de rótulo quando dá alergia.Em 1989, o Manual de Noriega vinha em papel grosso, com carimbo, briefing fechado e atraso inevitável entre o fato e a versão oficial. Hoje ele cabe no bolso, vibra no modo silencioso e chega antes do café esfriar. O golpe, a captura, a explicação e a justificativa aparecem embalados no mesmo pacote, com notificação push e emoji implícito de bandeira. O império, que antes precisava de semanas pra convencer, agora testa argumento em tempo real, mede curtida, ajusta discurso e, se necessário, edita a própria história antes que alguém termine de ler o segundo parágrafo.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
É aí que o passado começa a ensaiar o futuro: se 1989 foi encenado para a televisão, 2026 já nasce pensando no celular, vertical, curto e digerível, do jeito que agrada o algoritmo e tranquiliza o eleitor. O Manual de Noriega ganhou atualização automática e, se depender do Tio Sam, virá em versão premium: menos explicação, mais imagem, menos direito internacional, mais narrativa pronta. O risco não está só na repetição do gesto, mas na naturalização do método — quando a intervenção vira conteúdo e o precedente vira tutorial, qualquer tela pode ser trincheira e qualquer crise pode acabar resolvida com um toque de dedo e uma coletiva “em breve”.
Por isso, quando ouvi de Rubens Recupero a expressão “a equação está em aberto”, ela caiu como luva. A ação é incompleta porque ninguém sabe o que ela pretende ser quando crescer: é uma operação “utópica” de retirada, arrancar Maduro e largar um vazio pra Venezuela se virar num novo governo, ou é o primeiro capítulo de uma mudança de regime, com elenco novo escolhido no camarim de Washington. A diferença entre uma coisa e outra não é semântica; é o tamanho do estrago e o tempo de ocupação da notícia na cabeça das pessoas.
E havia um motivo pro susto não ser totalmente surpresa: ninguém mobiliza porta-aviões, submarino nuclear, dezenas de navios e dezenas de milhares de homens na vizinhança do Caribe “pra não fazer nada”. Demonstração de força sem ato vira fraqueza com uniforme, e fraqueza é a única coisa que Trump não admite nem no espelho. Então ele agiu, como quem precisa provar para si mesmo que a própria ameaça é uma moeda conversível.
Prova de vida e o teatro da legalidade
Delcy Rodríguez pediu o básico que a civilização inventou depois de muito trauma: se você diz que capturou alguém, prove. O problema é que, nesse jogo, “prova” não é detalhe; é o próprio jogo, porque sem paradeiro divulgado e sem base legal explicada sobra o que sempre sobra quando a política vira espetáculo: rumor com roupa de fato e fato com cara de rumor. E aí o cidadão comum vira refém de duas narrativas simultâneas, ambas com trilha sonora alta demais pra pensar.
A Venezuela até pode tentar se pendurar no Conselho de Segurança da ONU, mas ali mora um bicho antigo: o veto. Os Estados Unidos têm o botão que desliga a luz da indignação quando ela ameaça virar resolução. Qualquer texto que critique a operação tende a nascer com data de validade de iogurte aberto. A diplomacia, nesse momento, fica parecendo aquelas portas giratórias que giram só pra quem já tem crachá do prédio.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
E aí aparece o paradoxo mais amargo, do tipo que o Jabor adoraria apontar com o dedo e uma careta: é um ato de agressão ao direito internacional, sim, mas o governo venezuelano também não é um concurso de virtudes. Desde Chávez, a máquina foi sendo puxada pra dentro: minaram-se estruturas democráticas, alongou-se o braço do Estado sobre a Justiça, deformou-se a eleição até ela ficar parecida com ela mesma apenas por fora. O chavismo fez a obra completa: instalou um governo autocrático com verniz popular, e Maduro herdou o balcão e a marreta.
E no meio, como sempre, ficam as pessoas ouvindo explosão e tentando entender se o noticiário é mapa ou labirinto — sem saber direito se estão se informando ou apenas acumulando caminhos errados.
Quando o Estado vira enredo, quem paga ingresso é quem não queria nem sair de casa, e o pior é que nem ganha folheto explicando a peça. Washington anuncia captura sem apresentar prova, Caracas nega, o céu se ilumina, o barulho corre o mundo e a legalidade fica esperando na fila. As coletivas substituem a investigação, o “Recupero Venezuela” vira palavra-coringa e a força passa à frente do direito internacional como se fosse procedimento padrão. No fim, a conta não vem em metáfora: vem em petróleo no centro da mesa, instabilidade na região, pressão sobre vizinhos e o risco real de transformar exceção em método.
Petróleo, China, Doutrina Monroe e o roteiro pronto
Toda intervenção precisa de uma justificativa que caiba numa frase, de preferência com palavras grandes e moral pequena. Aqui, o dicionário veio pronto: drogas, “narco-Estado”, ameaça, ordem, justiça. É o tipo de argumento que funciona como desodorante político: não resolve o problema, mas tenta disfarçar o cheiro. Só que, como lembram os especialistas, o cheiro mais forte quase sempre vem do posto de gasolina, não do tribunal.
Vale sempre ressaltar que, a Venezuela senta em cima da maior reserva comprovada de petróleo do planeta, algo na casa de 303 bilhões de barris, e isso não é um detalhe técnico, mas um ímã geopolítico. Parte desse óleo é extra-pesado, exige tecnologia e dinheiro, e justamente por isso cai bem nas refinarias americanas, especialmente as da Costa do Golfo. Trump, que mede o mundo pela régua do preço interno, enxerga aí uma alavanca doméstica: combustível caro derruba humor, e humor derrubado derruba voto.
Quando o vice e a turma mencionam petróleo, não é poesia, é inventário. Trump chegou a falar em “petróleo roubado”, puxando uma memória antiga de expropriações e nacionalizações de ativos que já foram de empresas americanas e foram estatizados no período chavista. Ele não finge que está indo “restabelecer a democracia”; ele sinaliza desde o começo que está indo atrás do combustível, e democracia entra no texto como planta decorativa de recepção, bonita na foto, irrelevante na conta.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
E a pressão já vinha sendo montada como cerco: sanções ampliadas, medidas mirando familiares, bloqueio total a navios petroleiros ligados ao país, apreensão de embarcações, sufoco logístico que aperta portos, armazenamento e fluxo de exportação. Houve até relato de falta de capacidade para armazenar petróleo por conta das medidas que impedem navios de atracar e sair. É o tipo de estrangulamento que faz a economia virar refém e o governo virar refém da economia.
Só que o mapa não termina no óleo; ele continua na China. Antes das sanções, os EUA eram grandes importadores do petróleo venezuelano. Depois, o tabuleiro mudou e a China ganhou peso, com acordos de petróleo em troca de empréstimos, barris como garantia e uma participação que disparou. Em 2023, a China teria recebido 68% das exportações de petróleo bruto da Venezuela. Esse número, pra Washington, não é estatística, é provocação.
PRA CONTEXTUALIZAR: a Doutrina Monroe (1823) foi o “Europa, tira a mão daqui”: os EUA diziam que ninguém de fora devia interferir nas Américas. No papel, era defesa da independência do continente. Na prática, virou um cartaz de “área reservada” que, com o tempo, serviu pra justificar a influência e as intervenções de Washington na América Latina quando convinha.
Daí a volta da Doutrina Monroe com cheiro de papel novo, como se alguém tivesse tirado do arquivo morto e passado perfume. A estratégia declarada de política externa fala em focar mais na América Latina, recalibrar presença militar e “retomar princípios” antigos, agora amarrados à ideia de impedir que a China tenha acesso a recursos estratégicos na região. Isso ecoa a velha ambição de hegemonia continental, com paralelo histórico na Open Door Policy, a “porta aberta” que às vezes abre com conversa e às vezes abre com força. Quando a porta não cede, eles trazem a chave inglesa.
E ainda tem a vitrine corporativa: ampliar o mercado sul-americano para empresas americanas, abrir caminho pra parcerias e exploração, não só de commodities, mas de processos e indústria. Até conversas públicas de oposição venezuelana com Trump Jr. já falaram em abertura do mercado. No fim, é sempre o mesmo refrão com outra guitarra: o discurso promete ordem, mas a partitura está escrita em cifrão.
América Latina em modo déjà-vu
O continente tem memória muscular: quando helicóptero sobrevoa capital e governo cai em rumor, o corpo lembra antes da cabeça. Lembra de doutrina, de intervenção, de “salvação”, de promessas de democracia desembarcando com bota. E lembra também do outro lado da moeda: autoritarismo doméstico que vira desculpa perfeita pro autoritarismo importado, porque a tragédia latino-americana adora essa parceria infeliz.
Por isso a reação internacional já nasce dividida, como sempre: uns chamam de justiça, outros de terrorismo de Estado, e o planeta segue nessa coreografia de indignações seletivas. A novidade, se existir, vai estar na ressaca: sanções, energia, migração, represálias, instabilidade, esse pacote que ninguém anuncia em coletiva porque não cabe no púlpito, mas cabe direitinho no bolso de quem não tem escolha.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
A reação do colombiano Gustavo Petro também ganha outra cor nesse cenário. Ele governa uma democracia, não há acusação formal de “cartel estatal” contra Bogotá, mas a Colômbia é vista historicamente como origem de parte das rotas do narcotráfico. Se o critério é elástico e a acusação vira arma, qualquer governo pode se ver na alça de mira quando quem acusa tem frota e veto.
No Brasil, a diplomacia fez a manobra clássica de quem atravessa sala cheia de cacos de vidro: após convocar uma reunião de emergência sobre a situação [3], Lula condenou a ação americana, disse que cruzou “uma linha inaceitável”, colocou-se à disposição pra negociação, mas sem citar Trump nem Maduro. Não é timidez; é técnica. O Brasil não reconheceu oficialmente a última vitória eleitoral de Maduro e não quer virar fiador do chavismo, mas também não quer jogar fora o canal reaberto com Washington. E há ainda a leitura pragmática: assessores acham que Trump quer comandar pessoalmente a “saída” venezuelana, com alguém alinhado aos interesses americanos, e que não está especialmente interessado em plateia internacional no palco.
Espetáculo Perfurado, Ouro Preto em Cena Armada
Por enquanto, o que existe é isso: Trump disse que capturou, Caracas pediu prova, o mundo viu clarões e ouviu barulho, e a legalidade ficou na fila do atendimento esperando ser chamada pelo número. O resto é espuma, e espuma, em política, costuma ser vendida como cerveja artesanal, com rótulo patriótico e preço inflacionado.
E a “equação em aberto” do Recupero segue como fantasma rondando o texto: retirada cirúrgica ou mudança de regime, gesto pontual ou começo de ocupação indireta. A melhor saída, do ponto de vista americano, seria derrubar a peça principal sem invadir o tabuleiro inteiro, porque invasão com tropa é perigosa, território é de quem mora nele, e a história tem o péssimo hábito de humilhar o invasor com a paciência do chão.
“Recupero Venezuela” é dessas frases-coringa que a política adora: cabe em discurso, cabe em manchete, cabe até em faixa de carro de som. Às vezes significa promessa de reconstrução econômica e social, às vezes vira slogan de campanha, às vezes aparece até em noticiário de esporte ou de disputa de fronteira. Não é um programa com CNPJ nem uma entidade com sede e carimbo — é um rótulo elástico, desses que todo mundo usa porque soa sério, mas muda de sentido conforme o interesse e o microfone de quem fala.
Só que tem um detalhe interno que explica por que a Venezuela não se desmonta com um sopro. Maduro se manteve porque o chavismo construiu sustentação com método: atraiu as Forças Armadas, tirou chefias mais legalistas, colocou gente de confiança, e depois pagou confiança com poder econômico. Militares passaram a controlar parte importante da economia, especialmente o petróleo, e quando farda vira sócia, a estabilidade vira negócio. No mesmo pacote, armou-se população, multiplicaram-se milícias, e as eleições seguiram existindo, mas sob controle do regime, como vitrine de loja que vende outra coisa no fundo.
E aí o personagem entra com sua biografia de novela amarga: Maduro, ex-motorista de ônibus do metrô de Caracas, líder sindical, militante do MBR-200 de Chávez, deputado, presidente da Assembleia, chanceler, vice, herdeiro ungido em cadeia nacional, eleito por margem apertada após a morte do padrinho. Depois vieram anos de crise, protestos, repressão, sanções, Constituinte com poder absoluto que driblou o Parlamento, eleições contestadas, economia em colapso, hiperinflação, pobreza e êxodo. A Venezuela, com petróleo como quase única receita externa, apanhou quando o preço do barril despencou, imprimiu dinheiro, explodiu inflação, e viu milhões saírem do país. E ainda houve o capítulo Essequibo [4], com tentativa de anexação e tensão regional, porque em política ruim sempre cabe um conflito extra.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
Então não há lado bom nessa briga, infelizmente. De um lado, um governo autocrático e corroído, com legitimidade discutida e instituições machucadas. Do outro, um ato de força que atropela o direito internacional como se fosse lombada pintada. A tragédia contemporânea é que “mais detalhes em breve” virou método de governo, e “coletiva” virou substituto de investigação, enquanto o petróleo faz o papel de maestro invisível e a Doutrina Monroe reaparece como fantasma que acha que é proprietário.
Se Maduro está de fato sob custódia e sob qual base, se haverá troca de regime, quem ocupa o vazio, o que acontece com as Forças Armadas compradas e com as milícias armadas, como reagem China, vizinhos e mercados, tudo isso ainda é terreno movediço. A manchete, por enquanto, é uma porta batida. E porta batida, a gente sabe, nunca fecha o assunto; só faz barulho pra parecer que fechou. Ou seja: se essa moda pega, o mundo vira um condomínio em que os fortes arrombam a porta dos fracos e ainda deixam bilhete de “manutenção preventiva”.
Desta vez, a desculpa esfarrapada veio com cheiro de “guerra às drogas” [5], mas o perfume que domina o corredor é outro: ouro preto, o petróleo. Imagina se o Brasil entra nessa dança e a Amazônia vira o novo “teatro de operações”, com gringo explicando soberania pra gente em PowerPoint e helicóptero desenhando a palavra “parceria” no céu. Aí a desculpa muda de figurino, vira clima, vira droga, vira garimpo, vira “segurança regional”, mas a coreografia é a mesma: o forte dita a música e o fraco que pague a conta no fim do baile.
Encerramento
Por fim o que vimos foi Donald Trump pegando o microfone feito gerente de posto: anunciou que vai mandar “as maiores companhias de petróleo” para a Venezuela, gastar bilhões, “consertar” a infraestrutura e fazer o petróleo render, como se estivesse falando de uma cozinha industrial com vazamento e não de um país. A promessa veio com aquele moralismo de balcão, “ganhar dinheiro para o país”, mas com uma piscadinha que nem precisou de legenda: as empresas “serão recompensadas”, claro, porque altruísmo corporativo só existe em comercial de TV.
Depois ele puxou o argumento vintage, aquele cheiro de mofo que a gente reconhece de longe: “nós construímos a indústria petrolífera” e “o socialismo roubou de nós”. É a história recontada como briga de herança, com Trump no papel de primo indignado e a estatal petrolífera de lá como a tia que ficou com a casa. No rodapé, a realidade: a Chevron é a única grande petroleira americana ainda com pé ali, mas agora Trump quer transformar o mapa em canteiro de obras, com o barril como justificativa e o contrato como hino.
No mesmo pacote, ele vendeu a captura como cinema de ação: disse que o Exército “poderia ter matado” Maduro, mas não matou porque “nossos homens foram muito rápidos [antes que ele fugisse para um] lugar seguro todo de aço”. É a versão geopolítica do “tava armado, mas era de brinquedo”: ameaça embaladinha em frase de bravata, para o público aplaudir e o mundo engolir. E, como sempre, a democracia ficou sem fala no roteiro e quem ganhou close foi o petróleo, de novo, e de novo, e de novo.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
Do lado de Caracas, Delcy Rodríguez apareceu na TV estatal com o kit completo do governo sitiado: ministros ao redor, pose de trincheira e frase de manual, “nunca seremos colônia”. Chamou a captura de “sequestro”, reafirmou Maduro como “único presidente” e convocou resistência, porque quando a realidade na moldura da foto [6] virou intervenção, a soberania vira palavra de combate. Ao mesmo tempo, correu o boato de posse secreta, e aí a novela ficou com dois narradores: um diz “eu governo”, o outro diz “eu administro”, e a população fica tentando respirar no intervalo.
Em outro canto do mundo, o governo russo resolveu entrar em cena para “corroborar” a crítica e pedir que os EUA reavaliem a posição, o que, traduzido, é mais um fósforo jogado numa sala já tomada por gasolina. O resultado imediato é esse: Washington se afasta ainda mais dos aliados da Venezuela, e a diplomacia vira um corredor estreito onde todo mundo passa com o dedo no gatilho e a mão no bolso.
E tem a hipocrisia óbvia que nem precisa de lupa: se o argumento do narcotráfico fosse mesmo critério sério, Colômbia e México já teriam recebido visita “de grande escala” faz tempo, com coletiva marcada e tudo. Mas o moralismo antidrogas é aquele figurino clássico, serve pra qualquer ocasião, especialmente quando o assunto real não cabe na frase oficial.
De todo modo, a bravata cumpre sua função: é recado direto, não para Maduro, mas para o elenco em volta e para a oposição: uma mensagem de que o poder não está em disputa, está em “administração”, e que quem sonha com transição pode acabar descobrindo que a transição tem dono, roteiro e bilhete na portaria.
E Trump, sem se constranger, anunciou a parte que parece piada, mas não tem graça: “vamos administrar” a Venezuela por um tempo indeterminado, por um “grupo” que ele vai revelar “em breve”, sem dizer como nem quando acaba. Tirou María Corina do quadro com uma frase venenosa, disse que ela “não tem respeito nem apoio”, e ainda insinuou conversa com Delcy via Rubio, como quem negocia a chave da casa com quem ficou na sala.
No fechamento, invocou a Doutrina Monroe como quem resgata um certificado antigo e concluiu com a ambição em voz alta: “o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”. O século XIX voltou, só que agora com coletiva, navio de guerra e sobretudo, planilha de petróleo. E agora, mais do que nunca, a palavra de ordem é “precedente”: se fizeram com Maduro, podem fazer com qualquer um, em qualquer esquina do hemisfério. Quando invasão vira procedimento, o “grave” sai do vocabulário e entra no protocolo, com carimbo, senha e coletiva marcada.
[1] http://abcdoabc.com.br/estados-unidos-ataca-venezuela-maduro-capturado/
[2] https://www.usa.gov/
[3] http://abcdoabc.com.br/lula-convoca-reuniao-emergencia-sobre-venezuela/
[4] https://abcdoabc.com.br/referendo-na-venezuela-pela-anexacao-de-essequibo-tem-95-de-apoio/
[5] https://abcdoabc.com.br/donald-trump-ataque-militar-prisao-maduro/
[6] https://abcdoabc.com.br/trump-divulga-foto-maduro-detido-navio-de-guerra/