
A coreografia Brace [1] ocupa o palco do Sesc Belenzinho entre os dias 9 e 12 de abril de 2026, trazendo a São Paulo uma investigação física sobre o limite do impacto. Criada pelo moçambicano Edivaldo Ernesto, a obra chega à capital paulista após circular por palcos da Itália, Grécia e Eslováquia.
O espetáculo Brace utiliza o conceito de "preparar-se para a colisão" como metáfora para a sobrevivência do corpo, transformando a tensão muscular e emocional em uma narrativa de resistência que desafia a estética tradicional do movimento.
O espetáculo funciona como um campo de forças onde o gesto nasce do colapso e da necessidade de recuperação imediata. Para o público, a experiência é sensorial e bruta, afastando-se da busca pela beleza plástica para focar em uma verdade visceral.
No Sesc Belenzinho [2], unidade que é referência para as artes cênicas na Zona Leste e de fácil acesso para moradores do Grande ABC, a montagem estabelece um diálogo entre o risco real da performance e a fragilidade da existência humana.
"Brace cria sua própria mitologia, transformando o corpo em território de reconstrução e autoficção. O viajante inventa caminhos para acessar os saberes de seus antepassados, percorrendo rastros fragmentados de um passado incompleto ou nunca devidamente escrito", pontua a sinopse da obra sobre o mergulho na memória dos povos Zulos e Mwene Mutapa.
Ancestralidade e a técnica do movimento contínuo
Reprodução/ Instagram
Radicado na Alemanha e membro da prestigiada companhia Sasha Waltz & Guests, Edivaldo Ernesto funde danças tradicionais africanas com técnicas contemporâneas de improvisação. Sua trajetória como assistente de David Zambrano, criador das técnicas Flying Low e Passing Through, confere ao espetáculo uma dinâmica de solo e chão extremamente veloz e precisa.
A obra Brace é o resultado dessa fusão, onde o legado ancestral não é apenas um tema, mas a própria motorização do músculo que se move em cena.
A importância institucional desta curta temporada reside na oportunidade de intercâmbio cultural direto com uma das figuras mais influentes da dança improvisação atual. Ernesto desenvolveu metodologias como o Depth Movement, lecionadas em universidades internacionais, e traz para o palco paulistano uma carga de "dança-resistência".
Para estudantes de artes do ABC e da capital, a presença do coreógrafo representa um acesso raro a uma linguagem que rompe fronteiras geográficas, conectando Moçambique, Europa e América Latina em um único fôlego coreográfico.
Repercussão e o cenário das artes na capital
Divulgação/Sesc
O impacto de uma obra como Brace no circuito cultural de São Paulo reforça a curadoria do Sesc em promover espetáculos de alta densidade emocional. A curta duração da temporada exige atenção do público interessado em produções internacionais de vanguarda.
Em um cenário onde a dança contemporânea busca novas formas de engajamento com a realidade social, a performance de Ernesto se destaca por não ignorar as lacunas e silêncios da história negra, transformando a ausência de registros em movimento de invenção.
Os desdobramentos futuros dessa apresentação podem ser vistos na oxigenação da cena local, inspirando coletivos de dança da região metropolitana a explorarem temas de autoficção e memória. O acompanhamento da carreira de Edivaldo Ernesto, que também assina obras como Tears e Mystical Self, é essencial para compreender as tendências globais da performance.
Quem comparecer ao Belenzinho encontrará mais do que um espetáculo de dança: encontrará um ritual de sobrevivência que utiliza o impacto como ponto de partida para a reconstrução da identidade.
Serviço: espetáculo Brace
Datas: 9 a 12 de abril de 2026Horários: Quinta a sábado às 21h30; domingo às 17hPreços: R$ 15 (credencial plena), R$ 25 (meia) e R$ 50 (inteira)Local: Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1000
[1] https://www.sescsp.org.br/programacao/brace-2/
[2] https://abcdoabc.com.br/sesc-belenzinho-recebe-travessia/