Banco Master: a crise anunciada que ganhou contornos criminais

Banco Master: a crise anunciada que ganhou contornos criminais
Banco Master: a crise anunciada que ganhou contornos criminais As investigações que hoje colocam o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, no centro do noticiário não surgiram de forma repentina. Elas são resultado de um processo iniciado no final de 2025, quando órgãos de controle passaram a identificar inconsistências graves na estrutura financeira da instituição. Desde então, o caso avançou de forma escalonada, acumulando alertas técnicos, decisões administrativas e, mais recentemente, reviravoltas judiciais e criminais. Naquele momento inicial, o foco estava na sustentabilidade do modelo de negócios do banco. Relatórios do Banco Central apontavam dificuldades crescentes de liquidez e um descompasso entre os prazos dos passivos captados e os ativos mantidos em carteira. O Banco Master já não era visto apenas como um banco agressivo em captação, mas como uma instituição cuja continuidade operacional dependia de fatores cada vez mais frágeis. Com o avanço das análises, o caso ultrapassou a esfera técnica. O que era tratado como um problema de solvência passou a levantar dúvidas sobre eventuais irregularidades operacionais, abrindo caminho para a atuação simultânea do Banco Central, do Tribunal de Contas da União e, posteriormente, do Supremo Tribunal Federal. Liquidação extrajudicial do Banco Master A decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, anunciada já em 2026, foi o ponto mais sensível de toda a crise. A medida, considerada extrema dentro do sistema financeiro, foi justificada oficialmente pela situação crítica das finanças da instituição e pelo descumprimento de normas prudenciais. O processo foi descrito por fontes do mercado como tempestuoso. Havia, àquela altura, um elevado volume de investidores expostos, um passivo expressivo lastreado em ativos de baixa liquidez e um ambiente de forte pressão política e institucional. A liquidação afastou a administração do banco e instaurou um regime de administração especial temporária, com a nomeação de um liquidante responsável por conduzir a venda de ativos e a quitação de credores. A medida gerou reação imediata. O Tribunal de Contas da União decidiu abrir uma apuração própria para avaliar os fundamentos e a rapidez da decisão do Banco Central. O relator Jhonatan de Jesus levantou questionamentos sobre o processo, enquanto entidades do sistema financeiro reagiram publicamente em defesa da autonomia técnica do regulador, alertando para o risco de enfraquecimento institucional. O projeto frustrado de incorporação ao BRB (Divulgação) Antes da liquidação, uma alternativa chegou a ser ventilada como possível solução para o Banco Master, seria um projeto de incorporação ao Banco de Brasília (BRB). A proposta previa a transferência de ativos e carteiras de crédito, em uma tentativa de preservar a operação e mitigar impactos sobre investidores e o sistema financeiro. Esse plano, no entanto, não prosperou. O Banco Central rejeitou a operação, apontando problemas na estrutura da transação e riscos associados à absorção de ativos considerados frágeis. Posteriormente, a primeira fase da Operação Compliance Zero revelou suspeitas de fraude na tentativa de venda de carteiras, estimadas em R$ 12,2 bilhões, o que agravou ainda mais o cenário. A rejeição do projeto de incorporação marcou um divisor de águas. A partir dali, tornou-se claro que o Banco Master não conseguiria uma solução negociada dentro do sistema, e que o caminho institucional seguiria para medidas mais duras e, eventualmente, para o campo criminal. Crise financeira e investigação criminal Com a liquidação em curso, a Polícia Federal aprofundou as apurações que já vinham sendo conduzidas desde o ano anterior. A investigação passou a reunir elementos que indicavam que os problemas do banco iam além de uma gestão malsucedida. A segunda fase da operação, deflagrada recentemente, foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do STF, e resultou no cumprimento de 42 mandados de busca e apreensão em diversos estados. Também foram determinadas medidas de bloqueio e sequestro de bens que somam mais de R$ 5,7 bilhões. Nesse momento, o foco deixou de ser exclusivamente institucional e passou a recair diretamente sobre o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro e seu círculo mais próximo. Aqui, ficou insustentável e o caso entrou definitivamente no campo criminal. Daniel Vorcaro: do controlador discreto ao centro da investigação (Divulgação) Daniel Vorcaro construiu sua trajetória no sistema financeiro à margem dos grandes conglomerados bancários, apostando em crescimento acelerado e estratégias de captação agressivas. Durante anos, manteve um perfil relativamente discreto, mesmo com a expansão expressiva do Banco Master. Esse cenário mudou radicalmente a partir do avanço das investigações. Relatórios da Polícia Federal, citados em decisões do Supremo Tribunal Federal, apontam Daniel Vorcaro como líder de uma organização criminosa estruturada, que teria operado por meio de emissões massivas de CDBs [1]sem lastro adequado e de transações financeiras consideradas artificiais. Segundo os investigadores, o modelo adotado pelo banco não era episódico, mas sistêmico e planejado. A segunda fase da operação ampliou o alcance das apurações ao atingir familiares diretos de Daniel Vorcaro. Mandados de busca e apreensão envolveram seu pai, sua irmã e seu cunhado. Um dos elementos que chamaram atenção foi a identificação de transferências financeiras relevantes, incluindo uma operação de R$ 9 milhões direcionada ao pai de Vorcaro, o que levantou suspeitas e aponta para de desvio de recursos. Pouco antes de uma dessas fases mais recentes da investigação, o banqueiro chegou a ser detido pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para fugir do país. A defesa alegou que ele não pretendia fugir e que a viagem teria como destino Dubai, onde participaria de negociações relacionadas à venda do Banco Master. Fundos, Reag Trust e a engrenagem financeira Outro eixo central da investigação envolve a relação entre o Banco Master e fundos administrados pela Reag Trust DTVM, também liquidada pelo Banco Central. Relatórios enviados ao TCU detalham como esses fundos teriam sido utilizados em operações consideradas fraudulentas entre 2023 e 2024. Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, os recursos circulavam rapidamente entre diferentes fundos, em uma dinâmica descrita como “ciranda financeira”, dificultando a identificação dos beneficiários finais e inflando artificialmente resultados. Alguns fundos apresentaram rentabilidades absolutamente fora do padrão de mercado, chegando a crescimentos exponenciais em períodos extremamente curtos. Ao que tudo indica esse mecanismo teria sido usado para sustentar o modelo de captação do banco, permitindo que recursos retornassem ao sistema na forma de novos CDBs, prolongando um ciclo considerado insustentável. A Reag administrava cerca de 90 fundos de investimento, o que amplia significativamente o impacto potencial das irregularidades. Um caso que ainda está longe do fim (Divulgação) Hoje, o caso Banco Master é visto por autoridades e especialistas como um dos episódios mais complexos já enfrentados pelo sistema financeiro brasileiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a classificar o episódio como potencialmente a maior fraude bancária da história do país. Com cerca de 1,6 milhão de investidores aguardando ressarcimento via Fundo Garantidor de Créditos, [2]investigações criminais em curso e um debate institucional ainda em aberto sobre o papel dos reguladores, o desfecho está longe de ser definido. O que já se sabe é que a crise do Banco Master não nasceu de um único evento. Ela foi construída ao longo do tempo, atravessou tentativas frustradas de solução, ganhou contornos criminais e hoje expõe fragilidades profundas na relação entre crescimento financeiro, supervisão e responsabilidade institucional no Brasil. [1] https://abcdoabc.com.br/cdb-x-poupanca-x-tesouro-direto-onde-investir-o-dinheiro/ [2] https://fgc.org.br/