Super-ricos escondem mais em paraísos fiscais do que metade do mundo possui

03/04/2026 - 16:50  
Super-ricos escondem mais em paraísos fiscais do que metade do mundo possui
Super-ricos escondem mais em paraísos fiscais do que metade do mundo possui A quantidade de riqueza escondida no exterior pelos super-ricos [1] já supera tudo o que a metade mais pobre da humanidade possui. A conclusão é da Oxfam [2], que divulgou uma nova análise dez anos após o escândalo internacional conhecido como Panama Papers, revelado em 2016 e considerado um dos maiores marcos do jornalismo investigativo sobre evasão fiscal e uso de estruturas offshore. Segundo a organização, cerca de US$ 3,55 trilhões em riqueza não tributada estavam ocultos em paraísos fiscais e contas não declaradas em 2024. O valor, por si só, já impressiona. É superior ao PIB da França e mais que o dobro da soma das economias dos 44 países menos desenvolvidos do mundo. Mas o dado mais simbólico está na concentração dessa fortuna. Desse total, aproximadamente 80% estariam nas mãos do grupo mais rico do planeta, o equivalente a cerca de US$ 2,84 trilhões. Em outras palavras, uma parcela minúscula da população global continua conseguindo blindar fortunas em uma escala que ultrapassa tudo o que 4,1 bilhões de pessoas possuem juntas. Panama Papers expôs a engrenagem dos Super-ricos (Imagem/Freepik) A nova leitura da Oxfam resgata os dez anos da investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), que revelou como empresas offshore, estruturas jurídicas opacas e redes financeiras internacionais eram usadas para esconder patrimônio, reduzir tributação e dificultar o rastreamento dos verdadeiros donos do dinheiro. Na época, mais de 370 jornalistas de 76 países analisaram milhões de documentos vazados e expuseram o funcionamento de um sistema construído para proteger fortunas, preservar anonimato e afastar grandes patrimônios do alcance da fiscalização pública. Dez anos depois, o escândalo já não ocupa manchetes diárias, mas a engrenagem segue funcionando. A própria Oxfam reconhece que houve algum avanço nos últimos anos, sobretudo com mecanismos internacionais de troca automática de informações financeiras. Ainda assim, a riqueza offshore não tributada continua representando cerca de 3,2% do PIB global, o que mostra que a lógica de blindagem patrimonial permanece viva e altamente funcional para os mais ricos. Segundo o coordenador de Tributação da Oxfam Internacional, Christian Hallum, o problema já não pode ser tratado apenas como uma distorção técnica do sistema financeiro. Para ele, trata-se de uma engrenagem de poder e impunidade. “Os Panama Papers levantaram o véu sobre um mundo sombrio onde os mais ricos movimentam silenciosamente fortunas imensas para além do alcance dos impostos e da fiscalização”, afirmou. O impacto cai sobre o restante do mundo (Estevam Costa/PR) O dado mais relevante dessa discussão talvez não seja apenas o tamanho da fortuna escondida, mas o efeito concreto que ela produz fora das planilhas. Quando trilhões deixam de ser tributados, o resultado aparece em Estados com menos capacidade de investimento, em sistemas públicos mais frágeis e em uma distribuição ainda mais desigual do peso tributário. Na prática, isso significa que a conta recai com mais força sobre quem tem menos instrumentos para escapar dela. Enquanto grandes fortunas conseguem operar por meio de estruturas internacionais sofisticadas, trabalhadores, consumidores e pequenos contribuintes seguem arcando com a maior parte da carga de um sistema que cobra mais de quem tem menos margem de manobra. A Oxfam também chama atenção para o desequilíbrio entre países ricos e pobres nesse processo. Segundo a organização, boa parte dos países do Sul Global ainda está excluída dos principais mecanismos internacionais de troca de informações tributárias, o que limita sua capacidade de localizar ativos escondidos no exterior e recuperar arrecadação perdida. No Brasil, a avaliação da entidade é que o problema continua atual e estrutural. Para a diretora executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, o caso revela que a desigualdade não é apenas consequência de renda, mas também de proteção institucional ao patrimônio de quem já concentra riqueza em escala extrema. “Há uma arquitetura global que protege grandes fortunas enquanto a maioria da população paga proporcionalmente mais impostos”, afirmou. Dez anos depois dos Panama Papers, o escândalo continua menos como uma lembrança do passado e mais como retrato de um sistema que ainda funciona para esconder riqueza, preservar privilégios e aprofundar desigualdades em escala global. [1] https://abcdoabc.com.br/quem-sao-os-super-ricos/ [2] https://www.oxfam.org.br/?gad_source=1&gad_campaignid=21291529392&gbraid=0AAAAADu9bYJfyaNENW-LKoKiz4Ss5pqJD&gclid=Cj0KCQjwyr3OBhD0ARIsALlo-Olo9IgsZ8N9rgbn-erP-nvCyuusGraxV7oLH3ktd23oVSRpowSBfosaAs4WEALw_wcB