
O Dia Nacional do Fusca é celebrado no Brasil em 20 de janeiro como uma homenagem a um dos automóveis mais emblemáticos, populares e afetivamente presentes na história automotiva do país. O modelo ganhou significado muito além de sua função prática: simboliza memórias de família, viagens, simplicidade, economia e a paixão por carros clássicos que atravessa gerações.
Fabricado no Brasil entre 1959 e 1986, na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP), o Fusca marcou o cotidiano de milhões de brasileiros e se consolidou como um ícone cultural e afetivo no imaginário nacional.
Neste ano, o encontro comemorativo ocorre no próximo domingo, dia 18 de janeiro, no estacionamento do São Bernardo Plaza Shopping [1]. O evento cumpre um papel significativo ao representar a celebração da popularização do automóvel no país, cuja trajetória se confunde com a própria história e cultura automotiva brasileira, influenciando diretamente o traçado urbano e o planejamento das vias públicas.
Como tudo começou
(Divulgação/Volkswagen)
O Fusca desembarcou no Brasil antes mesmo de existir oficialmente a Volkswagen no país. No início dos anos 1950, as primeiras unidades eram importadas da Alemanha, ainda sob a denominação Volkswagen Sedan. O nome “Fusca”, como passou a ser popularmente conhecido, só se consolidaria décadas depois.
Eram poucos veículos, vistos quase como uma curiosidade técnica: motor traseiro, arrefecido a ar, robusto e simples, características bem diferentes do padrão americano dominante à época, quando o Brasil já contava com fábricas da Ford (1919) e da Chevrolet (1925).
Os primeiros “fusquinhas” chegaram ao país por meio da Brasmotor, empresa que também montava caminhões americanos das marcas Dodge, Fargo e De Soto, todas do grupo Chrysler. A Brasmotor foi ainda pioneira na indústria de eletrodomésticos, criando uma marca que se tornaria parte do cotidiano brasileiro: a Brastemp.
Voltando ao Fusca, esses primeiros exemplares chamaram atenção pela confiabilidade em estradas precárias, algo comum no Brasil daquele período, uma realidade que, em alguns locais, ainda persiste.
Trajetória do Fusca no Brasil, no mundo e no cinema
Ao longo de sua trajetória, a Volkswagen comercializou aproximadamente 3,1 milhões de unidades do Fusca no Brasil, considerando o período regular de produção entre 1959 e 1986. Um fato curioso e raro na indústria automotiva é que o Fusca foi o único veículo a retornar à produção nas características originais após uma despedida oficial, no período de 1993 a 1996, conhecido como Fusca Itamar, em referência ao então presidente da República que idealizou seu retorno. Em 1996, o modelo se despediu definitivamente com a série especial Série Ouro.
Entre as décadas de 1960 e 1970, o Fusca chegou a representar mais de 50% das vendas de automóveis no Brasil. Por décadas, foi o carro mais vendido do país — um feito que nenhum outro modelo conseguiu repetir por tanto tempo.
O Brasil, no entanto, não recebeu a última grande atualização do Fusca, que passou a ser produzida no México a partir de 1978, após o encerramento da produção na Alemanha. Assim como nos Estados Unidos, o modelo também conquistou forte identidade local: no México, ficou conhecido como Evento reúne gerações em torno do Fusca, ícone da cultura automotiva brasileira fabricado por décadas em São Bernardo do Campo.enquanto nos EUA ganhou o nome Beetle.
O carisma do Fusca ultrapassou o universo automotivo e chegou ao cinema. Tornou-se estrela de Hollywood com os filmes do Herbie, produzidos pela Walt Disney a partir de 1968, com o último lançamento em 2005, já com a participação do New Beetle.
(Divulgação)
O Fusca, veículo de carisma mundial e reconhecido em diversos países, acumulou apelidos afetivos por onde passou, a ponto de, em muitos lugares, superar a própria marca Volkswagen em reconhecimento popular.
O papel desta comemoração
(Divulgação)
Os encontros de Fuscas — não apenas em São Bernardo do Campo, mas em diversas cidades e regiões — cumprem um papel que transcende a simples reunião de veículos antigos. Eles se consolidam como espaços de preservação da memória industrial, de valorização da cultura automotiva e de fortalecimento dos laços sociais, ao transformar o automóvel em elemento de identidade coletiva.
Ao reunir diferentes gerações em torno de um mesmo símbolo, esses eventos funcionam como verdadeiros museus a céu aberto, promovendo educação patrimonial, troca de conhecimento técnico e confraternização do espaço urbano.
Mais do que celebrar um carro, o encontro de Fuscas reafirma a importância da história da mobilidade na construção das cidades e demonstra como a memória afetiva pode ser um poderoso instrumento de conexão entre gerações, unindo passado, presente e futuro.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)
Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC [2]. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp [3]. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
[1] https://abcdoabc.com.br/encontro-de-fuscas-em-sao-bernardo/
[2] https://abcdoabc.com.br/
[3] https://unicamp.br/