
Poucas horas antes da reunião entre Donald Trump e Volodimir Zelenski para discutir a versão final de uma proposta para encerrar a Guerra da Ucrânia, a Rússia anunciou novos avanços militares no leste do país invadido há quase quatro anos. Segundo o Ministério da Defesa russo, seis localidades teriam sido conquistadas, incluindo a estratégica Mirnohrad, na região de Donetsk.
O governo ucraniano nega a perda total da cidade e afirma que os combates continuam na área, próxima a Pokrovsk, um importante centro logístico das forças de Kiev que caiu para Moscou no mês passado.
Ainda assim, análises de imagens georreferenciadas feitas por observadores independentes indicam presença russa entre as ruínas da localidade, reforçando a versão do Kremlin.
Pressão militar e desgaste das defesas ucranianas
A queda de Mirnohrad teria ocorrido após três meses de cerco, período inferior ao registrado em Pokrovsk, que resistiu por quase um ano. Outra cidade vizinha, Huliaipole, teria sido tomada em cerca de quatro semanas.
Para analistas, a sequência de perdas sugere um enfraquecimento da capacidade defensiva da Ucrânia em um dos trechos mais disputados da linha de frente, que se estende por cerca de mil quilômetros.
O momento do anúncio levanta suspeitas de que a Rússia, em Moscou [1], esteja buscando influenciar as negociações políticas. O encontro entre Trump e Zelenski está marcado para este domingo (28), no resort Mar-a-Lago, na Flórida, e ocorre em meio à intensificação das ações militares russas.
Ataques recentes e crise energética
Na véspera da reunião, a Rússia realizou um ataque de grande escala com mísseis e drones, que matou uma pessoa e deixou ao menos 32 feridas em Kiev [2]. A capital voltou a sofrer apagões em pleno inverno rigoroso, com a eletricidade sendo restabelecida apenas na manhã de domingo. A Ucrânia enfrenta sua pior crise energética desde o início da invasão, em 2022, devido à frequência e intensidade dos bombardeios.
Zelenski chegou aos Estados Unidos no sábado (27) e pretende apresentar um plano de 20 pontos para o fim do conflito. A proposta é uma resposta a um programa inicial de 28 itens elaborado pelos EUA em negociações preliminares com Moscou, considerado favorável ao Kremlin em sua primeira versão.
Territórios e impasses nas negociações
A versão mais recente da proposta americana incorpora parte das demandas ucranianas, mas enfrenta resistência russa. Rússia rejeita, por exemplo, o congelamento das atuais linhas de batalha como base para negociações territoriais. Vladimir Putin reivindica todos os territórios anexados ilegalmente em 2022, incluindo a totalidade do Donbass — formado por Lugansk, sob controle russo, e Donetsk, ocupada em cerca de 80%.
Nas regiões de Zaporíjia e Kherson, com aproximadamente 75% do território controlado pela Rússia, Putin já sinalizou disposição para manter apenas as áreas ocupadas. Ainda há incertezas sobre a eventual retirada de tropas de outras regiões, como Sumi, Kharkiv, Mikolaiv e Dnipropetrovsk.
Garantias de segurança seguem como obstáculo
Outro ponto sensível é a exigência ucraniana de garantias de segurança internacionais para evitar novos ataques russos. Moscou rejeita a presença de uma força de paz internacional, e permanece incerto como reagiria a qualquer mecanismo que envolvesse diretamente os Estados Unidos ou aliados europeus da Otan.
Zelenski afirmou que, caso um acordo seja alcançado com concessões significativas, poderá submeter a decisão a uma consulta popular. O desfecho, porém, depende também da aceitação russa. Até o momento, as sinalizações do Kremlin indicam que Putin só encerraria a guerra se pudesse apresentar o acordo como uma vitória estratégica para a Rússia.
[1] https://pt.euronews.com/tag/moscovo
[2] https://abcdoabc.com.br/russia-ataque-aereo-massivo-kiev-deixa-mortos/