
Abertura
A gente acorda no dia seguinte as festividades, um mero pós-Natal com aquela coragem murcha de quem prometeu “agora eu me cuido”. O peru vira sanduíche, o panetone vira culpa e a família vira pauta. O Brasil também tem esse ritual, só que com microfone e sirene. Quando parece que a semana vai começar devagar, alguém puxa um assunto proibido e derruba a mesa. E pronto, voltamos ao esporte nacional: transformar descanso em debate.
A ressaca, no caso, não é só de espumante ruim e piada repetida. É uma ressaca moral, dessas que começam quando você abre o grupo da família e já tem três áudios, duas indiretas e um “vamos conversar” que nunca é convite, é sentença. O país funciona igual: ninguém fala “bom dia”, todo mundo fala “seguinte”. E a gente, ainda com glitter no sofá e farofa no pensamento, tenta acreditar que janeiro vai trazer uma trégua, como se o Brasil fosse capaz de respeitar calendário.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
O pós-Natal é esse momento em que a decoração ainda está na sala, mas a paciência já voltou para o depósito. Você olha a árvore e ela te olha de volta, oferecendo silêncio, e o noticiário responde com barulho. Tem sempre uma carta, um boletim, um sumiço, um “entenda o caso”. O calendário tenta ser gentil, mas o país não colabora. Aqui, até a ressaca tem agenda.
E foi assim que o Brasil entrou no dia 26 com cara de 26 mesmo: sem glamour, sem trégua e com um leve cheiro de coisa mal resolvida. Do lado de um hospital, uma carta à mão vira recado político com laço de presente. Dentro do hospital, o corpo vira cenário e a dor vira nota de rodapé eleitoral. Do outro lado do mapa, uma tornozeleira decide sumir e o GPS vira narrador de suspense. No fim, o rito termina, mas o enredo não tira férias, feito a coluna especial de Natal do Café com Cinismo [1].
A carta: o presente que veio com manual de campanha
Bolsonaro, ainda sob o peso de cirurgia [2] e internação, aparece no noticiário por um texto escrito à mão e divulgado por Flávio. A carta reafirma a candidatura do filho à Presidência em 2026 [3] com a solenidade típica de quem chama de missão aquilo que é projeto. A frase central é a velha retórica de pai e pátria, com a entrega do filho como se fosse oferta sacrificial e não cálculo. O efeito imediato não foi união, foi irritação no entorno. Em família política, o problema quase nunca é o conteúdo, é quem teve a chave do cofre na hora do anúncio.
A carta tem o conforto de ser “documento” e a malícia de ser “ato”: ela evita improviso, evita pergunta e evita contradição, porque papel não gagueja e não dá chance ao repórter.
Só que o papel também tem uma crueldade: ele fixa a decisão num momento em que muita gente queria ganhar tempo. O pós-Natal é perfeito para isso, porque o país está lento e a manchete entra como café forte. A narrativa se impõe enquanto todo mundo ainda está comendo resto. E, quando o resto acaba, a briga já está posta.
Um país em que todo mundo jura odiar dinastia, a dinastia insiste com a tranquilidade de quem sabe que memória nacional dura menos que promoção de supermercado. Assim, uma internação vira cenário, a letra tremida vira verniz de “humano”, e a transferência de bastão tenta parecer rito, quando na verdade é só logística de poder com cheiro de antisséptico. O patriarca assina à mão para dar aura de destino, mas o subtexto é bem mais prosaico: garantir lugar na foto antes que alguém tire a moldura da parede.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
O incômodo dos aliados, incluindo gente muito próxima, vem embalado em moral de ocasião. Falam em egoísmo pelo timing, como se a política tivesse dia útil e feriado para ambição. Falam em desrespeito ao momento de saúde, como se o poder já não tivesse passado por cima de coisas piores em outros capítulos. O que aparece, por baixo, é uma disputa de comando: quem fala por Bolsonaro quando Bolsonaro está vulnerável. E vulnerabilidade, para esse grupo, é sempre oportunidade para alguém ocupar o espaço vazio.
No fundo, a carta revela mais sobre a casa do que sobre o país. Ela mostra que a candidatura “vale”, mas não “fecha”, porque não existe tranca definitiva quando o assunto é herança de liderança. Mostra que o clã se movimenta como condomínio barulhento: cada morador acredita que tem direito a convocar assembleia. Mostra que o bolsonarismo precisa da imagem de unidade, mas vive da tensão interna como combustível. E mostra que, mesmo quando a decisão sai, a discussão continua, só muda de lugar.
O hospital: o corpo como palco e o boletim como legenda política
Nesse interim, nosso pós-Natal teve gosto de boletim médico que descreve cirurgia de hérnia, uma fisioterapia iniciada, ajustes de medicação e uma rotina de um outro pós, o operatório que deveria ser só clínica. Só que, aqui, nada é só clínica quando se trata de personagem político grande. O hospital vira extensão do gabinete, com visita, foto, recado e bastidor. A recuperação vira narrativa de resistência com fisioterapia [4], porque a direita adora o vocabulário da prova, do sacrifício e do retorno. E o país, que lê tudo como novela, transforma cada item do boletim em capítulo seguinte.
A história do soluço persistente entra como detalhe quase absurdo, mas muito brasileiro. Em outro lugar, soluço seria só sintoma, aqui vira metáfora pronta, dessas que a crônica não precisa nem inventar. O corpo, quando falha, expõe o que a política tenta esconder: limite, tempo, fragilidade. Só que a reação é sempre a mesma: transformar limite em performance. Se há dor, vira prova de fé; se há repouso, vira estratégia; se há silêncio, vira mensagem cifrada. E o cuidado, que devia reduzir o ruído, acaba alimentando o ruído.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
Nesse cenário, a entrevista que existia como possibilidade e foi abortada por saúde vira fantasma útil. Ela serve para contar a história de que havia um plano de fala e, como não deu, veio a carta. Serve para sugerir disputa de bastidor sem precisar nomear a disputa. Serve para colocar Michelle e filhos como peças de um tabuleiro [5] doméstico que, no Brasil, sempre acaba público. E serve para mostrar como o bolsonarismo governa o próprio mito: com encenação contínua, mesmo quando o protagonista está de avental.
No fim, o hospital vira uma espécie de corredor eleitoral com cheiro de álcool em gel. A política entra no quarto com sapato sujo e senta na cadeira ao lado da cama. O país assiste e tenta decidir se é compaixão ou cálculo, mas as duas coisas aqui frequentemente moram na mesma frase. O boletim médico vira legenda de vídeo e o vídeo vira argumento. E a pergunta que sobra não é “ele melhora?”, é “quem controla a fala enquanto ele melhora?”.
A direita por dentro: paz de rede social, guerra de bastidor
A carta não pacifica porque pacificação é coisa de manual, não de grupo que vive de disputa. Existe sempre alguém que prefere outro nome, outro caminho, outro timing, e que chama isso de “prudência” para soar virtuoso. Existe sempre alguém que acha que o próximo passo deveria ser negociado, e não anunciado, porque negociação mantém poder distribuído. Existe sempre alguém que lê a movimentação como tentativa de herdar o bastão antes do dono soltar. E, quando a leitura vira essa, qualquer gesto vira provocação.
Mesmo com o país alimentando a polarização [6] como lenha para uma fogueira das vaidades políticas, o cenário de tensão interna aparece como aquelas brigas em que ninguém diz “estou com ciúme”, mas todo mundo fala “é pelo bem do grupo”. De um lado, a lógica do filho que quer ocupar espaço antes que outro ocupe. Do outro, a lógica de aliados que preferem manter a prateleira aberta e o futuro em suspense. No meio, Michelle como peça simbólica, porque ela representa popularidade, disciplina de imagem e um tipo de autoridade doméstica. Quando ela apoia, o clã finge harmonia; quando ela tensiona, o clã treme. E, nesse ambiente, até gesto pequeno vira mensagem grande.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
Também existe a direita que olha de fora e faz conta fria. Tem quem ache Flávio inviável, tem quem ache conveniente, tem quem ache bom só para manter a marca, e tem quem ache que isso tudo é trampolim para outro nome. Após a prisão de Jair Bolsonaro [7], o bolsonarismo mais do que nunca é "família" (a dele) tanto quanto uma franquia, e como sabemos, franquias tem disputa de mercado. A tal carta, ainda tenta fechar o cardápio, mas o cardápio continua na mesa porque ninguém quer perder a chance de escolher. E escolha, na política, é um luxo que se compra com tempo.
No fim, o pós-Natal da direita vira aquele clima de “tá tudo bem” dito com mandíbula travada. A decisão é apresentada como definitiva, mas o comportamento é provisório, porque todo mundo age como se ainda houvesse rodada de conversa. A unidade aparece na foto, mas a divergência aparece na operação. E operação é o que interessa, porque é nela que o poder se distribui ou se concentra. A carta foi um ato de concentração, e concentração sempre cria anticorpo.
A fuga: tornozeleira sem sinal, ração no banco e a noite como cúmplice
Enquanto um lado tenta controlar narrativa com papel e hospital, o outro lado tenta romper controle com estrada e aeroporto. Silvinei Vasques [8] sai na noite de Natal, com carro alugado, bolsas no porta-malas e itens de cachorro no banco, como se a fuga precisasse manter algum traço doméstico para parecer menos fuga.
O detalhe do cachorro é quase cruel, porque traz um ar corriqueiro para uma ação que é justamente romper o cumprimento da pena, como se a fuga fosse um mero passeio doméstico, com coleira, rotina e cara de “já volto” — só faltou o saquinho higiênico pra completar a encenação de cidadania.
A tornozeleira para de emitir sinal de madrugada e o Estado só percebe quando o silêncio eletrônico vira notícia. E a notícia, quando chega, já chega atrasada, como sempre. O país tem essa vocação para fiscalizar depois do estrago, como quem confere a porta arrombada e pergunta se alguém viu a chave. No fim, a tornozeleira é moderna, mas a vigilância é de lampião. E o silêncio, aqui, nunca é ausência: é só alguém ganhando tempo.
A cena tem um tipo específico de humor involuntário, aquele humor que dá vergonha de rir. A tornozeleira some, o GPS se cala, a equipe vai ao endereço, ninguém atende, e o roteiro parece de filme ruim porque o Brasil tem mania de produzir cinema sem orçamento e sem ensaio. O carro alugado entra como peça de cuidado tático, mas também como sinal de improviso. A bateria falha, o monitoramento falha, a captura vira corrida contra o tempo. E o tempo, nesse país, costuma trabalhar para quem está fugindo.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
No aeroporto de Assunção, a fuga ganha acabamento internacional. Aparece passaporte paraguaio com identidade de outra pessoa [9], aparece passagem para seguir viagem, aparece a tentativa de virar outro em outro lugar. Só que, diferente do discurso, documento falso não muda rosto, e rosto reconhecido derruba fantasia. A Polícia Federal [10] prende, a informação volta para o Brasil e o episódio vira mais um capítulo do pós-2022 que insiste em não fechar. A tornozeleira não é encontrada, mas a história encontra todo mundo, porque história adora humilhar pretensão.
O contraste com o outro enredo é o que dá o tom de crônica. De um lado, a política tentando se eternizar com carta e assinatura. Do outro, um personagem tentando escapar do peso do próprio nome com bateria, placa e escala no Panamá. No meio, o país comendo sobra e assistindo, sem saber se é tragédia, farsa ou repetição. E como repetição é a nossa especialidade, a gente já sabe a resposta antes de acabar o parágrafo. O Brasil não reinicia, ele só muda o figurino.
Fechamento | O feriado acaba, mas o barulho fica de herança
O pós-Natal brasileiro é esse lugar onde a paz é decoração e o conflito é estrutura. Você tira a árvore da sala, mas não tira o climão do noticiário. Uma carta tenta ordenar o futuro e, ao mesmo tempo, expõe a briga pelo comando do presente. Um boletim médico tenta ser só medicina, mas vira linguagem de poder. E uma tornozeleira que para de emitir sinal vira metáfora pronta de um país que vive perdendo o rastro do que deveria controlar.
E o mais engraçado, no sentido trágico e nacional do termo, é que a gente ainda tenta dar nome bonito pra isso. Chama de “articulação”, “movimento”, “bastidor”, como se fosse xadrez e não dominó de bar, batido com força na mesa. A verdade é que o barulho fica porque ele é útil: sustenta personagem, cria cortina, empurra manchete, dá a impressão de que alguém está no comando, mesmo quando ninguém sabe onde enfiou o controle remoto. A paz, quando aparece, é só aquele intervalo em que a TV fica muda antes de alguém aumentar o volume de novo.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
A política, aqui, tem alergia a silêncio. Ela ocupa o quarto do hospital [11], ocupa o feriado, ocupa a ceia, ocupa o telefone de madrugada. Ela encontra brecha na fraqueza, no cansaço e na distração, porque brecha é o que se busca quando não se pode convencer. E, quando não se convence, se impõe, se anuncia, se publica, se vaza. A carta é isso, a fuga é isso, o noticiário é isso. Um país inteiro movido a gesto e reação.
No fim, a crônica pós-Natal não precisa inventar nada, só precisa organizar o caos para ele ficar ainda mais evidente. A família tenta manter o sobrenome como partido, e o partido tenta manter a disputa como combustível. O hospital vira cenário, o aeroporto vira desfecho provisório e a semana começa com cara de mês. A rabanada endurece, mas a política continua macia, sempre pronta para ser moldada ao gosto de quem segura a faca. E a gente segue, porque aqui até a ressaca é um compromisso público.
[1] https://abcdoabc.com.br/cafe-com-cinismo-edicao-especial-de-natal/
[2] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-estavel-novo-procedimento-segunda-29/
[3] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-confirma-flavio-como-pre-candidato-2026/
[4] https://abcdoabc.com.br/jair-bolsonaro-fisioterapia-cirurgia-4-horas/
[5] https://abcdoabc.com.br/michelle-bolsonaro-mensagem-de-natal/
[6] https://abcdoabc.com.br/polarizacao-politica-disputa-eleitoral-de-2026/
[7] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-e-a-tornozeleira-em-chamas/
[8] https://abcdoabc.com.br/silvinei-vasques-chega-brasilia-prisao-preventiva/
[9] https://abcdoabc.com.br/silvinei-vasques-preso-fuga-passaporte-falso/
[10] https://www.gov.br/pf/pt-br
[11] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-estavel-novo-procedimento-segunda-29/