
A virada do ano [1]costuma simbolizar motivação, recomeço e novas expectativas, mas dados recentes mostram que esse impulso inicial dura muito menos do que se imagina. Uma pesquisa conduzida pela OnePoll revelou que apenas 8% das pessoas conseguem manter suas metas por mais de um mês, e que a média de duração das resoluções é de 3,74 meses. Ainda assim, temas como condicionamento físico, finanças pessoais e saúde emocional seguem entre as promessas mais estabelecidas — e também entre as mais abandonadas.
Segundo a psicóloga e hipnoterapeuta Brunna Dolgosky, compreender por que essas metas se desfazem tão cedo exige olhar para além da força de vontade. Para ela, um dos erros mais comuns é supor que o entusiasmo da virada do ano seja suficiente para sustentar mudanças profundas. “A mente funciona por economia de energia e tende a preservar padrões antigos, mesmo quando são prejudiciais”, afirma. Metas amplas, abstratas e desconectadas da rotina real acabam sobrecarregando o cérebro, que naturalmente retorna aos comportamentos automáticos.
Por que o recomeço não é suficiente para mudar hábitos
A sensação de “novo ciclo” até cria um impulso inicial, mas esse efeito costuma ser superficial. A especialista explica que o cérebro reage simbolicamente às viradas de calendário, o que gera uma percepção momentânea de renovação, mas sem provocar mudanças internas duradouras. “A motivação do começo do ano é um impulso emocional temporário”, diz Brunna.
Os hábitos, no entanto, são armazenados em sistemas automáticos do cérebro, ligados à repetição e à familiaridade. Sem uma reestruturação mais profunda das crenças que sustentam comportamentos antigos, o organismo tende a retornar ao padrão que considera seguro. Nesse processo de mudança, abordagens que atuam para além do nível consciente também ganham espaço.
Brunna explica que técnicas terapêuticas voltadas ao funcionamento do subconsciente ajudam a lidar com padrões automáticos que dificultam a adoção de novos comportamentos. Ao enfraquecer associações antigas e reforçar respostas mais alinhadas aos objetivos atuais, esse tipo de trabalho contribui para reduzir a autossabotagem e diminuir a sobrecarga mental envolvida na mudança de hábitos, tornando o processo mais sustentável ao longo do tempo.
Quando a frustração aparece antes do esperado
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A desistência precoce também está ligada à forma como os deslizes são interpretados. “A frustração ativa circuitos de ameaça no cérebro e reduz a motivação. Quando a pessoa interpreta um erro como fracasso pessoal, o cérebro entende que continuar tentando é perigoso”, explica a psicóloga.
Por isso, a orientação é transformar o erro em aprendizado, não em identidade. Pequenas práticas ajudam nesse processo, como pausas de respiração profunda para regular o sistema nervoso, visualizações matinais para reforçar a motivação e o registro de pequenas vitórias diárias — sinais que o cérebro reconhece como progresso e continuidade.
[1] https://abcdoabc.com.br/metas-de-ano-novo-habitos-duradouros-em-2026/