
A vila ferroviária de Paranapiacaba [1], em Santo André (SP), está mais próxima de figurar entre os bens culturais importantes do planeta. Em paralelo à 24ª edição do Festival de Inverno [2], autoridades municipais confirmaram que a candidatura de Paranapiacaba ao título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) segue firme e avança em diversas frentes.
“Estivemos em Portugal em maio e a recepção à proposta foi extremamente positiva. A comunidade internacional do patrimônio [formada por arquitetos, pesquisadores e gestores] já está bastante ciente da candidatura. É um projeto sólido, com etapas bem definidas”, afirmou o subprefeito, Fábio Picarelli, durante coletiva.
A candidatura de Paranapiacaba à Unesco é considerada estratégica para consolidar a vila como referência mundial de preservação ferroviária, arquitetura inglesa e patrimônio imaterial. O processo, no entanto, exige planejamento técnico e envolvimento da população.
Rumo a 2027: os próximos passos do reconhecimento
O processo de chancela da Unesco envolve uma série de requisitos. Dois deles são considerados centrais para a vila: a elaboração de um Plano de Gestão do Patrimônio, já em andamento por meio de convênio com a PUC-Campinas, e o engajamento da comunidade andreense, especialmente os 750 moradores da vila.
Segundo a prefeitura, o cronograma atual prevê a conclusão do plano até dezembro de 2026, com a candidatura sendo oficialmente apreciada em 2027. Até lá, uma série de encontros, oficinas e ações educativas está sendo planejada para ampliar a participação da população local no processo de valorização cultural.
“A Unesco não reconhece apenas estruturas físicas. Ela avalia a forma como a comunidade se relaciona com o seu patrimônio. É fundamental que os moradores se sintam parte desse projeto e sejam seus maiores defensores”, disse o subprefeito.
Uma vila símbolo de história e preservação
Divulgação
Fundada no século XIX como entreposto da São Paulo Railway, Paranapiacaba é um exemplar único da arquitetura ferroviária inglesa no Brasil. Suas casas de madeira, relógio no estilo Big Ben, ruínas do sistema funicular e a neblina constante criam uma atmosfera que remete à era vitoriana. Um charme que há décadas encanta visitantes e estudiosos do mundo todo.
A candidatura à Unesco busca justamente consolidar esse legado como uma referência global de patrimônio industrial e ferroviário. Além da importância histórica, Paranapiacaba também é um modelo de recuperação urbana e uso sustentável do patrimônio.
“Esse processo mostra que não basta restaurar fachadas. É preciso dar vida aos espaços, criar oportunidades culturais e econômicas. E o Festival de Inverno tem papel essencial nisso”, comentou Fábio Picarelli.
Reconhecimento trará novos investimentos e proteção
O título de Patrimônio Mundial da Unesco não é apenas simbólico. Ele pode trazer acesso a financiamentos internacionais, projetos de cooperação técnica, fortalecimento do turismo responsável e, principalmente, maior proteção às estruturas e tradições da vila.
Paranapiacaba já figura desde 2003 como patrimônio histórico nacional pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). No entanto, o reconhecimento da Unesco ampliaria significativamente a visibilidade internacional do local.
Com isso, Santo André também se posiciona como município comprometido com a preservação e inovação no uso de seus bens culturais. “Estamos preparados para esse salto. A vila está mais bonita, mais bem cuidada e mais próxima das pessoas”, garantiu o subprefeito.
História de Paranapiacaba
A origem de Paranapiacaba remonta ao século XIX, quando foi construída pela companhia inglesa São Paulo Railway para dar suporte ao transporte de cargas, principalmente café, entre o interior paulista e o porto de Santos.
Localizada no alto da Serra do Mar, a vila foi planejada com traços típicos da arquitetura inglesa, abrigando casas de madeira, galpões operacionais e um imponente relógio inspirado no Big Ben, que se tornou um dos cartões-postais da região. Seu nome, de origem tupi, significa "lugar de onde se vê o mar", o que evidencia sua posição estratégica na geografia paulista.
Durante décadas, Paranapiacaba foi essencial para o crescimento econômico do estado, sendo símbolo da era ferroviária brasileira. Com o passar do tempo e a modernização dos transportes, a vila entrou em declínio, sofrendo com o abandono e a deterioração de suas estruturas históricas.
No entanto, a partir dos anos 1990, movimentos de preservação, acompanhados de investimentos públicos e privados, deram início a um processo de revitalização cultural e urbanística da vila.
Hoje, Paranapiacaba figura como um dos destinos turísticos mais encantadores do estado de São Paulo. O cenário bucólico, o clima de serra, a arquitetura singular e a aura histórica atraem milhares de visitantes todos os anos, especialmente durante o Festival de Inverno.
A candidatura à Unesco surge como um passo natural para consolidar esse legado em âmbito internacional e garantir ainda mais proteção e valorização ao seu acervo histórico e cultural.
Patrimônios históricos da Unesco no Brasil
De acordo com o Ministério do Turismo [3], o Brasil possui 23 patrimônios históricos sendo 15 Culturais, sete Naturais e um Misto, divididos em 17 estados.
Patrimônios Culturais
Cidade Histórica de Ouro Preto (MG) – 1980
Centro Histórico de Olinda (PE) – 1982
Ruínas de São Miguel das Missões (RS) – 1983
Centro Histórico de Salvador (BA) – 1985
Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG) – 1985
Brasília (DF) – 1987
Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) – 1991
Centro Histórico de São Luís (MA) – 1997
Centro Histórico de Diamantina (MG) – 1999
Centro Histórico de Goiás (GO) – 2001
Praça de São Francisco, em São Cristóvão (SE) – 2010
Paisagem Cultural do Rio de Janeiro – 2012
Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte (MG) – 2016
Cais do Valongo (RJ) – 2017
Sítio Roberto Burle Marx (RJ) – 2021
Patrimônios Naturais
Parque Nacional do Iguaçu (PR) – 1986
Reservas da Mata Atlântica Sudeste (SP e PR) – 1999
Reservas da Costa do Descobrimento (BA e ES) – 1999
Pantanal Matogrossense (MT e MS) – 2000
Complexo de Conservação da Amazônia Central (AM) – 2000 (ampliado em 2003)
Ilhas Atlânticas: Fernando de Noronha e Atol das Rocas (PE e RN) – 2001
Chapada dos Veadeiros e Parque das Emas (GO) – 2001
Patrimônio Misto (Cultural e Natural)
23. Paraty e Ilha Grande – Cultura e Biodiversidade (RJ) – 2011
[1] https://abcdoabc.com.br/paranapiacaba-um-tesouro-de-historia-e-natureza-na-serra-do-mar/
[2] https://abcdoabc.com.br/festival-de-inverno-de-paranapiacaba-2025/
[3] https://www.gov.br/turismo/pt-br/secretaria-especial-da-cultura/assuntos/noticias/conheca-23-patrimonios-da-humanidade-que-ficam-no-brasil