
Abertura
Essa semana meu guri completou quatro anos e soprou as velas com aquela autoridade calminha de uma criança que ainda não aprendeu a duvidar. Na mesa tinha bolo, migalha e dedo no glacê, e na casa inteira eu vi todo o tipo de alegria que não se explica, só se vive. Com a chegada da festa da virada de ano novo [1], eu havia escrito esse texto com cara de “agora” há três dias, mas ele vai ser postado hoje, meio pós-virada, porque no Brasil até a crônica pega fila e chega de ressaca antes mesmo do champanhe, e sim, com atraso de réveillon. As quatro velas ali, quietinhas, pareciam mais honestas do que muito discurso em rede social. Vela não promete nada, só ilumina e vai embora sem pedir aplauso.
O tempo, por aqui, funciona como buraco de minhoca de supermercado: você entra para comprar leite e sai no ano seguinte, com a mesma playlist de foguetório e a mesma promessa de “agora vai”. A crônica, coitada, não viaja na velocidade da luz, ela vai no ônibus lotado do calendário, parando em cada esquina da timeline. E quando finalmente chega, ainda tem que desviar dos fogos, que estouram como se pudessem espantar, na marra, o que ficou mal resolvido no peito do país, com a mesma paúra dos meus gatinhos diante de babacas do rojão, esses patriotas da pólvora que confundem alegria com explosão e arma de fogo. É assim também o fogo do Réveillon, que mesmo colorido, bonito e inútil, age como certas bravatas. Já as velas do bolo iluminam pouco, mas iluminam o que importa: a cara de quem a gente mais ama.
De repente, entre o aniversário dele e a virada de hoje, o tempo deu aquele drible curto e indecente sem mais nem menos: quando eu fui ver, o “agora” já tinha virado “daqui a pouco”, e eu estava sentado na sala como quem espera a água do macarrão ferver, olhando pro relógio com cara de boletim. A semana escorregou, trocou de roupa, e voltou fingindo que nada aconteceu, esse truque velho do calendário que se acha humorista. E o mais cruel, é que o tempo não volta pra corrigir frase atravessada, nem pra desdizer barbaridade aventada em microfone aos sete ventos. A vida entrega no varejo, mas a história cobra no atacado.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)
E foi nesse intervalo meio absurdo que a casa resolveu seguir. Entre um desenho na televisão, com um herói verde, grandalhão e sentimental salvando o mundo no intervalo do comercial, a minha gata resolveu interferir na programação, como quem corta o assunto feito arranhão no presente e às vezes, muda de canal do passado por esporte. A pequena felina carimbou a pata com gosto no controle remoto com a autoridade de quem troca de realidade por capricho. Ela não muda de canal, ela muda o clima da casa, e como quem escolhe se a gente vai rir ou se irritar. E foi aí que a vida atravessou a sala com outro perfume.
Não era cheiro de pipoca nem de infância, era aquele odor asséptico que a gente reconhece sem nunca ter pedido intimidade: boletim médico, hospital, madrugada difícil. No outro canal, um homem adulto, desses que já ocuparam a moldura principal do país, não conseguia fazer o mais básico sem ser interrompido pelo próprio corpo. Engasgado não por discurso, mas por um soluço teimoso, repetido, humilhantemente democrático. O mesmo país que ouviu absurdos em sequência agora assistia ao raro momento em que o próprio corpo levantava a plaquinha de “chega”. E tem silêncio que vale mais que fogos: pelo menos ele não mente.
Um no começo da vida colecionando pequenas alegrias, outro no fim da linha colecionando derrotas fisiológicas, e eu tentando ser pai sem deixar a notícia virar comando. A festa continuou, mas o contraste parecia um velho porteiro do azar que decidiu ficar sentado comigo, como quem não vai embora fácil. Ele fica ali, com a delicadeza de um fiscal do destino, conferindo se a gente vai ter coragem de rir mesmo assim, e o pior é que a gente ri. Porque quatro velas não competem com o noticiário, elas desautorizam o noticiário, do jeito mais simples. E simplicidade, hoje, é um ato subversivo.
Da maneira mais seca e honesta, eu tinha escrito mentalmente uma frase simples, dessas que cabem num guardanapo, “um no início, outro no final”, e ela começou a ganhar carne na minha frente. O sopro do meu guri foi curto e decidido, como se ele tivesse descoberto que o tempo também obedece quando a gente chama com convicção. Só que a TV, com sua vocação para estragar a delicadeza, fez questão de lembrar que o corpo tem opinião própria e costuma se impor sem pedir licença.
Quatro Anos: A Vitória Antes do Medo
Quatro anos é a idade em que o medo ainda não aprendeu a falar alto, e por isso a coragem parece um estado natural. O piá correu descalço pela casa como se o mundo fosse um corredor infinito, e o cansaço fosse só uma palavra que adultos usam para estragar domingo. Ele tropeça, levanta e chama isso de “de novo”, como se a vida fosse reparável por definição.
É também assim o tal “parabéns”, que com sua melodia torta e repetida vira uma liturgia doméstica contra a pressa do mundo, e por alguns segundos a casa inteira obedece ao mesmo ritmo. A vela apaga, a sala sorri, e o bolo vira território onde se negocia fatias com uma diplomacia que não passou por gabinete nenhum. Na semana do Réveillon, isso ganha um brilho extra, porque lá fora todo mundo finge que virou alguém novo, e aqui dentro a gente só tenta ser presente.
É nessa hora que eu percebo como a infância manda mais na realidade do que muita gente com cargo e microfone. E eu entendo que comemorar também é cuidar, porque festa é uma maneira de dizer “por hoje, o mundo não entra aqui”, com direito a cordão de isolamento feito de balão e guardas de honra de papel crepom. É um boletim doméstico de estabilidade emitido pela cozinha, com cobertura de brigadeiro e oposição vencida no refrão de um “parabéns”.
Eu olho para o rosto dele aceso e lembro que a vida começa com vitórias pequenas, e é por isso que elas importam tanto. Vitória é pronunciar uma palavra inteira, inventar uma história, acertar um encaixe de brinquedo, insistir até conseguir, rir de um erro e tentar de novo sem transformar isso em vergonha. Nessa idade, o corpo parece aliado, um motor novo, e respirar é automático, silencioso, sem história, sem susto.
Quatro anos é começo, é estreia, é promessa, e eu tento segurar esse instante sem virar estátua de preocupação. É também tempo de mandato, esse intervalo em que adulto promete consertar o país e termina aprendendo que o mundo não cabe num plano de governo, mas em lições que a vida impõe, com tentativa de golpe [2] como lembrete de que até o óbvio precisa de vigilância. De modo que, para uma infância ainda no berço da cidadania democrática, basta apenas um “golpe” para desabar o chão que ela pisa achando que afago (é)terno. E o que não volta é isso: o tempo perdido com delírio autoritário, o estrago dito em voz alta, a coragem fingida de quem flertou com quartel. A cadeia, quando começa a apertar, aperta primeiro na garganta dos que juravam que eram intocáveis.
O Boletim: Quando a TV senta sem pedir licença
A TV entrou na festa como visita inconveniente, sentou na sala e abriu um boletim médico sem pedir licença. O texto dizia que Jair Bolsonaro [3]permanecia internado no Hospital DF Star [4], em Brasília, em cuidados pós-operatórios após cirurgia para retirar uma hérnia inguinal bilateral. E dizia, de novo, que o soluço voltava, que a pressão subia, que o corpo interrompia o personagem com mais eficiência do que qualquer editor.
A notícia veio com tons e cores de hospital que vira palanque com facilidade, informando que o procedimento foi um sucesso e que, em breve, a nação voltaria a ter seus tímpanos danificados pela velha verborragia chula, agora liberada clinicamente, com carimbo e alta para alegria da claque de berrantes patriotas da 25 de março. O detalhe saboroso é que, enquanto eu ajustava o texto para não envelhecer antes de nascer, o noticiário arrumava mais um capítulo. Boletim é isso: sempre tem continuação, sempre tem “novo procedimento [5]”, sempre tem um “só mais esse”. O corpo, pelo menos, não adota narrativa, ele só entrega consequência. E consequência não precisa de assessor.
Porque não ficou só no bloqueio do nervo frênico do lado direito, nem só no do lado esquerdo. Teve terceiro procedimento entrando na fila do corpo, com endoscopia digestiva para investigar refluxo e afins, como quem procura a origem do barulho que o discurso não explica. E aí o Réveillon [6] entrou na história com a delicadeza de uma sirene: em vez de fogos, monitor; em vez de brinde, soro; em vez de contagem regressiva, horário de exame. No meu lado, os fogos lá fora eram alegria mal-educada, no lado dele era bip de máquina, que é a versão adulta do “deu ruim”. A diferença é que fogos acabam em minutos, e certas contas demoram anos, mas chegam.
Eu, do lado de cá, fiquei com o rádio ligado e a ironia funcionando, que é o meu modo de não deixar a sala virar extensão do corredor. E é aqui, onde a notícia entra como som ambiente, mas não exatamente como uma ordem. O rádio fala, mas quem decide o ritmo da casa sou eu.
Não é preocupação, é senso de ridículo histórico: a única coisa que conseguiu calar a boca do homem por algumas horas foi o próprio diafragma fazendo greve.
E greve, veja só, ele quem sempre detestou, contraditório vindo de algum que nunca foi muito afeito ao labor verdadeiro, mas quando é no peito dele vira “quadro”, vira “conduta”, vira urgência com caneta e carimbo. O diafragma virou censor e, pela primeira vez, eu vi utilidade pública num silêncio bolsonarista. Pena que silêncio não dura, e memória do país dura menos ainda.
Na virada, enquanto metade do país promete “saúde” como se fosse brinde, o outro lado transforma hospital em cenário de legenda. E o Brasil, que já viu o sujeito debochar de vacina e minimizar morte, agora vê o sujeito reivindicar respeito clínico para um soluço, como se o universo tivesse decidido ensinar pedagogia com som ridículo. Tem gente que estoura champanhe, tem gente que estoura antiácido, e tem gente que estoura a paciência. E tem um detalhe que a virada não perdoa: o ano troca, mas tem um processo não se apaga com fogos. O tempo não volta, por outro lado, o corredor jurídico, esse sim, sempre encontra uma saída de emergência.
O Diafragma: O Governo Paralelo do Corpo
Existe um governo paralelo dentro da gente, e ele não concorre a eleição nenhuma. O diafragma não dá entrevista, não posta, não lacra, não pede anistia e não fala em “missão”, ele só contrai quando decide e pronto. Quando resolve desobedecer, não tem claque, não tem farda engomada, não tem live nem oração berrada que negocie com músculo.
O soluço, que parecia piada de criança, vira tirania quando dura demais [7]. Um “hic” repetido por horas é uma forma de censura orgânica, dessas que não precisam de Supremo nem de plenário, só de nervo. E é aí que a vida faz humor negro com a cara mais lavada do mundo: o homem que transformou o país num falatório perpétuo sendo interrompido por um barulhinho pateta, insistente, invencível.
A ironia adulta, que a criança ainda não conhece, é que o corpo sempre cobra o que o discurso debochou. Não dá para vencer sintoma no grito, não dá para mandar no ar com autoridade, não dá para fazer o diafragma bater continência. E quando isso acontece, a retórica emagrece, o personagem encolhe, e sobra o que sempre sobrou: gente trabalhando, método, rotina, tempo.
Na virada, é engraçado como o mundo faz o contrário: lá fora os fogos gritam por todos nós, e aqui dentro um músculo decide que barulho demais não passa. O Réveillon estoura arco-íris, mas é o peito que apita, como fiscal de falação, cortando excesso com um “chega” sem discurso. É a única autoridade que não precisa de microfone, porque basta um espasmo e pronto: a frase perde o rumo e a pose perde a pose.
E tem outra crueldade, mais quieta: o tempo não volta para desdizer barbaridade, mas o corpo volta, sempre, para lembrar. O calendário aperta como cela, não por vingança, por gravidade, e cada dia empurra um pouco mais o personagem para dentro do tamanho real dele. A cadeia, às vezes, começa no próprio fôlego, e o julgamento é sem plateia: só você, a noite, e o ar fazendo conta.
Enquanto isso, aqui em casa, meu filho pedia para cantar “de novo” como se a casa pudesse morar para sempre no refrão. A diferença entre os dois “de novo” é cruel e didática: o dele é reprise feliz, o outro é recorrência de sintoma, castigo sem metáfora. E eu escolhi ficar com o “de novo” da infância, porque pai não tem direito de deixar a alegria ser sequestrada pela televisão.
Cuidado: A única pauta que não depende de eleição
Se existe uma moral nesse contraste, ela não é bonita, é prática. Cuidar da minha versão pocket é fazer o simples com devoção, sem heroísmo e sem teatro: vacina, comida, sono, escola, abraço, limite, conversa. É um trabalho de bastidor que não rende manchete, mas segura o mundo de pé quando o mundo decide fazer chantagem.
Comemorar também é cuidar, porque festa é um jeito de dizer “por hoje, o mundo não entra aqui” sem precisar discursar. O brigadeiro vira decreto, o balão vira barreira sanitária emocional, e o parabéns vira hino curto de estabilidade doméstica. A alegria não é distração, é manutenção, e pai aprende isso na marra, na rotina e na colher suja de glacê.
Cuidar também é não romantizar doença de quem passou anos romantizando brutalidade. Hospital não absolve caráter, procedimento não limpa biografia, soro não dá banho de inocência. Só que o corpo é democrático na cobrança, e isso é o único ponto em que a realidade não negocia com narrativa.
Entre o sopro da vela e o procedimento do noticiário, tem uma frase que vale mais do que qualquer promessa de virada: continuar respirando. Meu filho respira sem perceber que respirar é privilégio, e eu faço de tudo para que ele demore a descobrir o contrário. Eu filtro o mundo para não transformar medo em herança, e deixo o essencial, que é o cuidado como chão firme.
Na virada, o que eu quero é isso: que a infância siga com suas vitórias pequenas, e que eu siga com a minha teimosia de manter a casa inteira. O país pode soluçar do lado de fora, pode gritar, pode espernear, pode repetir os mesmos erros com a mesma cara. Aqui dentro, eu canto, eu cuido, eu sustento o básico, e não deixo o noticiário dar ordem na mesa do bolo.
O Paradoxo da Solidão
No aniversário de quatro anos do meu filho, eu vi um começo limpo, luminoso, sem medo ensaiado, e isso vale mais do que qualquer manchete. Eu vi um corpo pequeno vivendo a política mais séria que existe, a do cotidiano funcionando, a do afeto obedecendo ao relógio do “parabéns”. E eu vi o mundo tentando invadir a sala com boletim, procedimento e carimbo, como se a casa fosse extensão de plantão.
Na virada, o texto que era “dessa semana” virou “dessa noite”, e isso também é Brasil: tudo chega meio fora do tempo, mas chega com barulho. E o Réveillon, que deveria ser só fogos e promessa barata, apareceu como contraste real, desses que não pedem licença. Tem gente estourando champanhe, tem gente estourando paciência, tem gente estourando o próprio diafragma na TV, e a gente aqui tentando estourar balão sem estourar por dentro.
No fim, o sujeito que chamava COVID de “gripezinha” [8] agora quer que o país trate soluço como evento nacional. Quando era no corpo dos outros, era “mimimi”; no dele, vira “quadro”, “procedimento” e câmera ligada. A gravidade, nele, sempre foi seletiva e por conveniência. E foi nesse cenário — entre soluços presidenciais e anestesias existenciais — que meu filho apagou as velas. O contraste foi tão claro que deu vontade de rir: enquanto um homem adulto travava no próprio corpo, outro pequeno descobria o poder de soprar o ar e ver a última chama se apagar. É a síntese do país: de um lado, o mito engasgado com o próprio ego — do outro, uma criança aprendendo a respirar com leveza. E eu fico pensando que talvez a infância seja esse país recém-fundado onde a esperança ainda governa sem oposição, e que a gente, adulto, vive tentando não virar fiscal da alegria.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI).
Nenhum general de farda engomada, desses que se escondem atrás da mesa com o estoque de bravura e de Viagra na gaveta. Nenhum deles apareceu pra discursar, porque general gosta de foto, não de prontuário. Nada de pastor viu demônio no soluço, a não ser no próprio dito cujo. Muito menos, “patriota” vestiu verde e amarelo pra pedir intervenção divina enquanto rezava pra pneus e mais 72 horas agarrado na frente de caminhão. O silêncio foi quase comovente: pela primeira vez, a ala que mais berra resolveu rezar em voz baixa, talvez com medo de que Deus, cansado da gritaria, finalmente resolvesse pedir o impeachment dos fiéis.
É como se a natureza, cansada de tanta improvisação, tivesse decretado intervenção respiratória — o tipo de ajuste que não precisa de tanque nem de plenário. E o Brasil, acostumado ao barulho, assistiu, enfim, a um milagre inédito: o silêncio. Porque, de vez em quando, o corpo fala o que a consciência de autocensura — o do fôlego. E o Brasil, que já ouviu todo o tipo de absurdo, enfim testemunha o milagre da mudez. Um soluço que vale mais que qualquer CPI.
Fechamento
Assim, como quem troca o noticiário pelo som do garfo e decide que hoje a manchete não entra, eu volto para a mesa, recolho prato, limpo migalha e penso que esse é o único editorial que presta, o da permanência. O moleque pede “de novo, papai”, e eu canto, porque ali a repetição é alegria, e decido que em minha sala, a alegria tem prioridade. E o outro lá, mesmo cercado sem cercadinho das consequências de uma língua que merecia algema e recebeu anestesia de prisão sem soltura na língua, vai descobrindo que o corpo também tem senso de justiça, ainda que trabalhe em plantão e com péssimo humor.
A conta não chega em forma de editorial, chega em forma de espasmo, refluxo e silêncio forçado, como se o organismo dissesse “agora você escuta”, sem precisar de microfone. O corpo não argumenta, não pede réplica e não aceita recurso. Ele simplesmente executa a sentença em tempo real.
E eu penso que tem certas coisas que a gente só aprende quando a fala perde a posse do ar, quando o personagem fica pequeno e sobra o sujeito, nu e sem roteiro.
É quando a vaidade perde volume e a verdade respira sozinha. Sem plateia, sem efeito especial, sem aplauso atrasado.E foi desse jeito, que segui pensando que a cada piscada minha, ele apaga uma nova velinha, aí lembro que o guri me disse, enquanto eu o fazia dormir:
— Papai, o que vai acontecer quando você virar estrelinha?
Assim fiquei com aquela pergunta na mão, como quem segura um copo muito cheio e sabe que qualquer tremida derrama. Então engoli seco, porque a infância, às vezes atira uma pergunta dessas como quem solta uma pedrada em forma de balão no lado esquerdo mais profundo e amarra nossa fala sem imaginar que tudo pode estourar dentro do peito da gente ao desaguar em caminho de tempestade a vista.
Respirei fundo e respondi do jeito que deu, com voz de quem tenta ser teto falei que eu sempre ficaria ali, pertinho, vendo ele crescer. E que estrelinha não é sumiço, é cuidado à distância, pois amor é(terno), mesmo que às vezes, ele só mude o endereço.
E aí, pra não deixar o assunto virar velório de travesseiro, completei com a honestidade possível e a piada necessária: “Mas fica tranquilo, filho, papai vai demorar tanto pra virar estrelinha que, do jeito que andam as coisas, até lá vai dar tempo de ter um guarda bem chato de plantão na cela, ops...no céu, apitando toda vez que alguém tenta falar demais, tipo aquele sujeito do noticiário que só parava quando o próprio corpo pedia tempo e puxava o freio de ar.”
Ele riu, virou pro lado, e em dois minutos estava dormindo como quem confia. Eu fiquei acordado mais um pouco, porque pai às vezes apaga a luz do quarto, mas acende por dentro um susto quieto. E aí eu entendi: a gente não controla o tempo, mas ao menos dá pra escolhermos a luz que deixamos acesa. E com uma emoção que não cabe nos fogos coloridos nem em manchete, eu escolhi o riso mesmo quando o país insiste em gaguejar. Por isso sorrio, pois ele precisa de chão, não de pânico, então ele aperta a minha mão e sorri de volta com os olhos fechados, porque o tempo não volta, mas o afeto insiste teimoso em permanecer.
E se lá fora tem quem pague a vida inteira pelo que disse e fez, aqui dentro eu pago diferente: eu colho presença e pago colo, dou “boa noite” repetido, e presenteio com mais um “parabéns”. De novo e de novo, até que minha casa — esse congresso doméstico — onde tudo que se vo(l)ta no choro, se aprova no abraço, aprenda que a alegria também é uma forma de coragem. E o tempo?
Esse segue inequívoco, igual e (in)alcançávelmente inexorável, sem jamais ser derrotado, varrendo a gente feito vento em areia ampulheta quebrada sem sequer pedir licença:
não há soluções, (só)luços.
[1] https://abcdoabc.com.br/metas-de-ano-novo-habitos-duradouros-em-2026/
[2] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-e-o-roteiro-sem-autor/
[3] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-endoscopia-segue-internado/
[4] https://www.rededorsaoluiz.com.br/star/dfstar
[5] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-solucos-procedimentos-cirurgicos/
[6] https://abcdoabc.com.br/reveillon-de-luxo-destinos-que-atraem-os-ricos/
[7] https://abcdoabc.com.br/bolsonaro-solucos-procedimentos-cirurgicos/
[8] https://abcdoabc.com.br/em-live-bolsonaro-diz-agora-que-nunca-chamou-covid-19-de-gripezinha/