
Brigitte Bardot, uma das maiores estrelas da história do cinema francês e referência cultural do século 20, morreu aos 91 anos. Atriz, cantora e modelo, Bardot se tornou um fenômeno mundial a partir dos anos 1950, consolidando-se como símbolo de liberdade feminina, sensualidade e ruptura de costumes em uma Europa ainda marcada pelo pós-guerra.
Conhecida internacionalmente pelas iniciais “BB”, ela atravessou décadas influenciando o cinema, a moda e o comportamento, ao mesmo tempo em que viveu uma trajetória pessoal intensa, cercada por polêmicas, conflitos com a fama e posicionamentos políticos controversos.
Ascensão meteórica e projeção internacional
Nascida em Paris, em setembro de 1934, Brigitte Bardot iniciou sua formação artística no balé ainda na infância. Aos 15 anos, estampou a capa da revista Elle, o que abriu caminho para o cinema. O reconhecimento definitivo veio com o filme E Deus Criou a Mulhe [1]r (1956), dirigido por Roger Vadim, então seu marido.
Embora a produção tenha sido inicialmente mal recebida na França, o relançamento nos Estados Unidos transformou o longa em sucesso internacional. A obra projetou Bardot como o “sex symbol” absoluto de sua época e ajudou a difundir a imagem de uma mulher independente, moderna e livre, que contrastava com os padrões femininos vigentes.
Carreira marcada por grandes diretores e papéis icônicos
Ao longo da carreira, Brigitte Bardot trabalhou com nomes centrais do cinema europeu, como Jean-Luc Godard, Louis Malle, Henri-Georges Clouzot e René Clair. Entre seus filmes mais conhecidos estão O Desprezo (1963), A Verdade (1960) e Vida Privada (1961).
Mesmo quando enfrentou métodos de direção considerados abusivos, como os de Clouzot, sua atuação foi reconhecida pela crítica. Em festivais internacionais, como o de Veneza, Bardot atraía multidões e consolidava sua imagem como estrela global.
Apesar do sucesso, a atriz recusou diversos papéis que se tornariam clássicos do cinema, incluindo produções de James Bond e musicais de Jacques Demy. Essa postura alimentou a percepção de que ela frequentemente sabotava a própria carreira, priorizando escolhas pessoais em detrimento da lógica da indústria.
Fama, vida pessoal e conflitos com a exposição
A celebridade trouxe também um alto custo emocional. Brigitte Bardot teve a vida pessoal constantemente exposta, enfrentou perseguições da imprensa e episódios de hostilidade pública. Em 1960, no dia de seu aniversário, ingeriu barbitúricos e tentou tirar a própria vida, em um momento marcado pela pressão da fama e pela perda de privacidade.
Seus relacionamentos amorosos, muitos deles com artistas e personalidades conhecidas, também foram amplamente explorados pela mídia. Casamentos, separações e romances contribuíram para a construção de uma imagem pública intensa, que muitas vezes se sobrepunha à sua trajetória artística.
Ícone cultural e símbolo da França
Para além do cinema, Brigitte Bardot se tornou um dos maiores símbolos culturais da França. Em 1970, foi a primeira atriz a servir de modelo para o busto de Marianne [2], figura que representa a República Francesa e os valores da Revolução.
Na música, gravou cerca de 70 canções e colaborou com artistas como Serge Gainsbourg. A canção Je t’aime… moi non plus, gravada inicialmente com Bardot, só foi lançada anos depois, já com Jane Birkin, mas permaneceu associada à atriz.
Afastamento das telas e ativismo pelos direitos dos animais
Em 1973, Brigitte Bardot decidiu encerrar a carreira no cinema após atuar em cerca de 45 filmes. A partir de então, passou a se dedicar quase exclusivamente à defesa dos direitos dos animais, causa que considerava central em sua vida.
Ela escreveu cartas a organismos internacionais, defendeu o vegetarianismo e criou uma fundação voltada à proteção animal. Em diversas ocasiões, afirmou que prezava mais os animais do que os seres humanos, postura que reforçou sua imagem de figura radical e controversa.
Polêmicas políticas e últimos anos
Nas décadas seguintes, Brigitte Bardot voltou ao centro do debate público por suas posições políticas. Casada desde 1992 com Bernard d’Ormale, ligado à extrema direita francesa, declarou apoio a Marine Le Pen e acumulou condenações judiciais por declarações consideradas de ódio racial.
Apesar de negar intenções discriminatórias, suas falas sobre imigração e islamismo geraram forte repercussão negativa na França e no exterior.
Em setembro de 2025, aos 91 anos, lançou o livro Mon BBcédaire, no qual reuniu reflexões pessoais sobre liberdade, sociedade e sua própria trajetória. No prólogo, escreveu: “A liberdade é ser você mesmo, mesmo quando incomoda”.
Brigitte Bardot deixa um legado complexo: estrela absoluta do cinema, símbolo de emancipação feminina, ativista engajada e figura pública marcada por contradições. Mesmo afastada das telas há décadas, permaneceu como uma das personalidades mais reconhecidas e debatidas da cultura francesa.
[1] https://abcdoabc.com.br/como-a-sapatilha-retomou-o-posto-de-item-de-desejo-depois-de-cair-no-ostracismo/
[2] https://br.ambafrance.org/Marianne