
A Polícia Federal [1] executou nesta quarta-feira (15) a Operação Narcofluxo, mirando um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou cerca de R$ 1,63 bilhão. Os agentes federais prenderam figuras conhecidas do grande público, incluindo os cantores MC Ryan SP [2] e MC Poze do Rodo, além de Raphael Sousa Oliveira, criador da página de entretenimento Choquei. A megaoperação cumpriu ordens judiciais em oito estados brasileiros e no Distrito Federal.
Os investigadores apontam os indiciados pelos crimes de lavagem de capitais, associação criminosa e evasão de divisas. A corporação mobilizou dezenas de agentes para cumprir 39 mandados de prisão temporária e 45 ordens de busca e apreensão. O foco da ofensiva visa desidratar o núcleo financeiro de uma rede estruturada e promover o bloqueio integral dos bens pertencentes aos investigados.
A origem principal dos fundos ilícitos decorre da exploração contínua de jogos de azar não regulamentados no país. O grupo organizava plataformas de apostas e operava rifas digitais clandestinas com promessas irreais de lucro. O inquérito policial detalha indícios robustos apontando a utilização dessa mesma engrenagem virtual para limpar o dinheiro oriundo do tráfico internacional de drogas.
Como a Operação Narcofluxo rastreou o dinheiro
Reprodução/Polícia Federal
O desmantelamento da organização criminosa começou muito antes das atuais incursões policiais. A inteligência da corporação cruzou dados sigilosos obtidos durante a Operação Narco Vela e a sua ação derivada, a Narco Bet, ambas deflagradas ao longo do ano de 2025. O ponto de virada ocorreu com a quebra de sigilo telemático de um alvo indireto dessas antigas ofensivas judiciais.
Os peritos criminais extraíram uma vasta quantidade de dados armazenados no serviço iCloud, da empresa Apple. Os arquivos incriminatórios pertenciam ao contador Rodrigo de Paula Morgado. O cruzamento rigoroso dessas informações arquivadas na nuvem revelou a existência de um núcleo criminoso autônomo, totalmente dissociado daquele investigado inicialmente pelas autoridades.
A partir desse farto material digital, a Operação Narcofluxo mapeou com precisão cirúrgica o trajeto internacional do dinheiro sujo. O documento chancelado pela Justiça descreve um sistema engenhoso, dividido em setores especializados para a captação, o armazenamento estratégico, a circulação difusa e a reinserção do capital ilícito no sistema financeiro nacional.
A rota da lavagem e a mescla de capitais
Reprodução/Polícia Federal
O esquema começava sugando valores de milhares de brasileiros atraídos pelas plataformas clandestinas de apostas e estelionato digital. Os criminosos fragmentavam os valores arrecadados através de centenas de microtransferências sequenciais para não despertar os alertas das instituições bancárias. Essa técnica clássica de ocultação financeira recebe o nome de smurfing nos manuais de investigação criminal.
O dinheiro fracionado seguia rapidamente para uma rede estruturada de operadores de caixa e processadoras de pagamento. O objetivo consistia em centralizar temporariamente os recursos antes da pulverização final. “Através delas, conseguiram partir para as fases finais de lavagem que era a descentralização desses recursos e a utilização de laranjas”, detalhou o delegado Marcelo Maceira.
A dificuldade imposta às autoridades de fiscalização aumentava com a conversão silenciosa de parte do montante em criptoativos. Operadores financeiros da cúpula remetiam o capital virtualizado diretamente para corretoras operando no exterior. A complexidade dessas transações internacionais visava criar barreiras jurídicas quase intransponíveis para o rastreio e a repatriação dos valores.
Um pilar central exposto pelos relatórios da Operação Narcofluxo envolvia a instrumentalização da indústria fonográfica e do marketing digital. O grupo injetava os recursos provenientes de crimes em empresas de fachada voltadas para a produção de eventos. A tática mesclava o dinheiro sujo com as receitas legítimas e reais geradas por shows musicais e campanhas publicitárias de grande alcance.
O braço do entretenimento e os líderes do esquema
Divulgação
A utilização massiva da estrutura do funk paulista e carioca garantiu a aparência de legalidade necessária para o esquema prosperar livremente. O dinheiro clandestino custeava ativamente as despesas operacionais das carreiras artísticas e pagava o cachê das apresentações. MC Ryan SP figura no inquérito como o principal líder dessa ramificação criminosa, operando através de suas próprias produtoras.
Policiais federais abordaram o funkeiro paulista em Riviera de São Lourenço, bairro de altíssimo padrão na cidade de Bertioga, no litoral de São Paulo. Simultaneamente, equipes de assalto detiveram MC Poze do Rodo no interior de sua residência, localizada no bairro do Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro. A apuração vincula Poze diretamente às empresas de rifas.
As redes sociais funcionavam como uma vitrine aspiracional para o núcleo investigado. Os suspeitos acumulavam patrimônios milionários em tempo recorde, adquirindo mansões suntuosas, frotas de carros importados, aeronaves particulares e joias exclusivas. Os itens luxuosos, constantemente registrados em nome de interpostos e testas de ferro, figuravam em postagens diárias de ostentação extrema.
O papel estratégico dos grandes influenciadores
Montagem ABCdoABC (Fotos: Reprodução/Redes Sociais)
A organização recrutava de forma sistemática influenciadores digitais detentores de milhões de seguidores cativos. O influenciador Chrys Dias, que soma quase 15 milhões de fãs nas redes, acabou preso durante o cumprimento dos mandados da manhã. Os produtores de conteúdo atuavam ativamente na linha de frente da captação comercial, divulgando os links das apostas fraudulentas.
O faturamento astronômico natural da classe artística servia como o escudo perfeito contra os mecanismos rígidos de fiscalização bancária, fenômeno mapeado detalhadamente pela Operação Narcofluxo. “Essas pessoas públicas conseguem movimentar grandes quantias sem chamar atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos”, pontuou o delegado responsável pelas incursões de campo.
Raphael Sousa Oliveira, fundador da influente página Choquei, aparece nos relatórios executando múltiplas funções vitais para a cúpula do esquema. O documento acusa o criador do perfil de promover as plataformas ilegais, atuar na blindagem da imagem pública dos envolvidos e receber remunerações exorbitantes. Agentes localizaram e detiveram o empresário na cidade de Goiânia.
Respostas das defesas e os próximos passos
Reprodução/Redes Sociais
Os acusados permanecem sob regime estrito de prisão temporária, com um prazo inicial de trinta dias definido pelo juízo federal. A restrição drástica de liberdade visa garantir a coleta ininterrupta de depoimentos e impedir a destruição premeditada de evidências físicas. Os advogados dos cantores criticaram abertamente a dificuldade de acesso rápido e integral aos autos processuais físicos.
O advogado Felipe Cassimiro Melo de Oliveira assumiu a tribuna em defesa da integridade de MC Ryan. O representante legal pontuou que o artista mantém um rigoroso controle tributário sobre a sua produtora e garantiu a origem lícita das movimentações financeiras. A assessoria jurídica de MC Poze, comandada por Fernando Henrique Cardoso Neves, manifestou desconhecimento temporário sobre o teor dos mandados.
A equipe de Raphael Sousa enviou uma nota oficial repudiando as conclusões do relatório da Operação Narcofluxo. O texto argumenta que o empresário limitou sua atuação à comercialização regular de espaços publicitários através de sua agência de mídia. A defesa assegura que provará nos tribunais a completa inexistência de vínculos do influenciador digital com a associação criminosa descrita pela polícia.
[1] https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjA-MX0sfKTAxUxHLkGHdZLMRIQFnoECAwQAQ&url=https%3A%2F%2Fwww.gov.br%2Fpf%2Fpt-br&usg=AOvVaw2ZvzHSrPTzbqwvyujRAmiB&opi=89978449
[2] https://abcdoabc.com.br/mc-ryan-sp-poze-do-rodo-preso-pela-pf-operacao/