Solidão na era digital: relações frágeis e conexões cada vez mais raras

Solidão na era digital: relações frágeis e conexões cada vez mais raras
Solidão na era digital: relações frágeis e conexões cada vez mais raras Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sozinhos. Em uma era onde temos mais conexões virtuais do que nunca, uma epidemia silenciosa se espalha pelo Brasil e pelo mundo: a solidão [1]. A Organização Mundial de Saúde (OMS [2]) já classificou esse fenômeno como uma "epidemia global", associando-o a doenças cardiovasculares, metabólicas e até mesmo à mortalidade precoce. [3] O psicanalista, sexólogo e especialista em Inteligência Emocional, Betto Alves, observa um fenômeno preocupante em seu consultório: "Não é raro encontrar pessoas que têm centenas de matches em aplicativos de relacionamento, mas não conseguem estabelecer uma conexão real com ninguém. Perdi a conta de quantas vezes ouvi de pacientes que eles têm 'preguiça' de percorrer todos os passos para engatar um relacionamento". (Marcelo Camargo/Agência Brasil) Conexões descartáveis e sofrimento duradouro A cultura do "match", que gera gratificação instantânea, tem tornado as pessoas cada vez menos tolerantes aos desafios naturais de qualquer relacionamento. "As pessoas estão tratando relacionamentos como se fossem produtos de consumo. Se não funciona perfeitamente desde o início, descarta-se e parte-se para o próximo. Isso cria um ciclo vicioso onde ninguém desenvolve as habilidades necessárias para construir e manter conexões profundas", observa Alves. O psicanalista Betto Alves (Divulgação) Esta impaciência nas relações reflete uma sociedade que perdeu a capacidade de investir tempo e energia na construção de vínculos duradouros, sejam eles amorosos ou apenas afetivos. O resultado é o adoecimento do corpo, como mostrou a OMS: o corpo somatiza o sofrimento psíquico, transformando a angústia da solidão em manifestações orgânicas concretas. "O ser humano não foi projetado para ficar sozinho. E quando isso acontece, datas comemorativas despertam gatilhos que trazem muito sofrimento", pondera o psicanalista. A solidão não é apenas um estado emoci [4]onal — ela mata, literalmente. Estudos mostram que o isolamento social pode ser tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Tecnologia: remédio ou veneno contra a solidão? Para Betto Alves, a tecnologia funciona como um pharmakon — simultaneamente remédio e veneno. "O problema não é a tecnologia em si, mas como a utilizamos. Podemos usá-la para criar comunidades significativas e fortalecer laços existentes, em vez de substituí-los". O desafio está em usar conscientemente essas ferramentas para facilitar, e não obstruir, conexões autênticas. O especialista questiona nossa concepção limitada de conexão: "Por que celebramos apenas um tipo de amor? Precisamos expandir nossa compreensão de conexão e intimidade para além dos casais românticos tradicionais". Novos modelos de convivência Esta proposta implica um necessário trabalho de luto em relação aos ideais românticos inatingíveis, permitindo a emergência de novos modelos mais realistas e satisfatórios. "Precisamos começar a imaginar novas formas de estar junto, novas estruturas que se contraponham a uma cultura que exacerba cada vez mais nosso isolamento. O buraco está cada vez mais fundo", alerta Alves. (Divulgação/Freepik) Para quem se sente sozinho, o psicanalista oferece uma perspectiva transformadora: “Às vezes, a solução para a solidão não está em encontrar 'a pessoa certa', mas em cultivar múltiplas conexões significativas". O especialista reforça que estamos vivendo um tempo único. “A tecnologia nos proporciona cada vez mais a conexão, mas nada substitui o calor humano, o olhar nos olhos, a presença física". E conclui com um chamado à reflexão: "Enquanto não falarmos profundamente sobre o que nos trouxe até aqui, dificilmente vamos aprender a criar novas formas de estar junto que nos ajudem a sair do lugar onde chegamos. Talvez seja hora de começarmos essa conversa". [1] https://abcdoabc.com.br/criancas-e-adolescentes-tambem-sofrem-de-solidao/ [2] https://www.who.int/pt/about [3] https://abcdoabc.com.br/a-solidao-pode-ser-uma-bomba-relogio-para-o-seu-coracao/ [4] https://abcdoabc.com.br/a-solidao-entre-idosos-afeta-saude-fisica-e-mental/