
Abril é conhecido como o mês do livro. A agenda é cheia: temos o Dia Internacional do Livro Infantil (2), o Dia da Biblioteca (9), o Dia Nacional do Livro Infantil [1](18) e o Dia Mundial do Livro (23). Seria um período naturalmente dedicado à celebração da leitura.
Mas talvez esta seja, antes de tudo, um momento de pausa e reflexão.
O alerta dos dados sobre leitura no Brasil
Imagem criada por IA (Gemini)
Os dados mais recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil [2] divulgada em 2025, e realizada pelo Instituto Pró-Livro [3], acendem um alerta importante: pela primeira vez, os não leitores são maioria no país — 53% da população se declara não leitora, enquanto 47% se considera leitora.
Quando cruzamos essa informação com os dados do INAF 2024 (Indicador de Alfabetismo Funcional), divulgados em 2025, o cenário se torna ainda mais preocupante. Segundo o levantamento, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais.
Na prática, isso significa que cerca de 1 em cada 3 pessoas não compreende plenamente o que lê.
E há um agravante: esse índice está estagnado desde 2018.
Um problema estrutural que atravessa a educação
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Não estamos diante de uma dificuldade pontual. Estamos falando de um problema estrutural, que atravessa a educação, impacta a produtividade, limita o acesso à informação e influencia diretamente a formação de opinião no país.
Diante disso, é inevitável fazer uma pergunta simples — e incômoda: será que estamos ensinando da forma certa?Uma das respostas possíveis passa pela linguagem.
Durante muito tempo, associamos complexidade à qualidade. Mas, na prática, o excesso de termos difíceis, construções rebuscadas e explicações pouco objetivas pode afastar, confundir e desestimular. Isso é especialmente sensível no ambiente escolar, principalmente entre alunos que já enfrentam dificuldades de leitura e interpretação.
Linguagem simples como caminho para ampliar o acesso
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A linguagem simples não é redução do conteúdo. É, na verdade, um caminho para ampliar o acesso ao conhecimento.Essa percepção não é apenas teórica. A professora universitária italiana Cristina Pompa, que vive no Brasil, experimentou isso na prática ao acompanhar o aprendizado da filha, Joyce, uma jovem com deficiência intelectual.
“A linguagem acessível desperta curiosidade e vontade de aprender. Esse tipo de material não deveria ser restrito a pessoas com deficiência — ele deveria ser para todos”, defende.
Segundo Cristina, o modelo tradicional de ensino no Brasil ainda é engessado, com livros didáticos que utilizam uma linguagem excessivamente complexa e, muitas vezes, desnecessária. O resultado é o afastamento dos alunos.
No caso de Joyce, que utilizou na sua trajetória escolar material didático da MAIA construído com linguagem simples, o impacto foi claro: mais interesse, mais autonomia e maior engajamento com o aprendizado.
Talvez esteja aí uma das chaves para enfrentarmos os baixos índices de leitura no Brasil. Não basta incentivar o hábito de ler — é preciso garantir que as pessoas compreendam o que estão lendo e se percebam com potencial para aprendizagem.
Se conseguirmos avançar na forma como nos comunicamos, especialmente na educação, podemos não apenas melhorar os indicadores, mas também reduzir a evasão escolar e ampliar o acesso real ao conhecimento.Neste mês do livro, mais do que celebrar, precisamos repensar.
Porque ler, no fim das contas, não é apenas juntar letras. É entender, refletir e participar do mundo.
Leide Maia
Leide Maia - Divulgação
Leide Maia atua na área de educação e comunicação, com foco em linguagem simples e acessibilidade do conhecimento. É idealizadora da Plataforma MAIA e desenvolve projetos voltados à inclusão, aprendizagem e melhoria da compreensão leitora no Brasil.
[1] https://abcdoabc.com.br/sme-leituras-dia-nacional-do-livro-infantil
[2] https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/
[3] https://www.prolivro.org.br/