'Nós merecemos espaço': formada em RH e desempregada, jovem com deficiência cobra oportunidades

21/04/2026 - 21:10  
'Nós merecemos espaço': formada em RH e desempregada, jovem com deficiência cobra oportunidades

'Nós merecemos espaço': formada em RH, jovem com deficiência cobra oportunidades Aos 26 anos, formada em Recursos Humanos (RH) e cursando a segunda graduação em Serviço Social, Mayara Samora enfrenta o desemprego e o que acredita ser o preconceito gerado pela falta de informação da sociedade. A história da jovem ilustra um cenário preocupante revelado por dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a desigualdade na educação e no mercado de trabalho para mulheres com deficiência em Campinas (SP). "Nós, mulheres com deficiência, também merecemos espaço", afirma. De acordo com os dados do IBGE, Campinas tem 34.018 mulheres com 25 anos ou mais que têm alguma deficiência. Dessas, 17.454 não completaram o ensino fundamental ou não têm instrução — o número representa 51,3% do total. ✅ Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp E mesmo para quem eliminou algumas barreiras e chegou ao ensino superior, novos obstáculos impedem o desenvolvimento profissional e social. Mesmo com especialização, Mayara está desempregada há cinco meses. Ela acredita que a demissão de seu último emprego, cujo motivo não ficou claro, foi por "falta de paciência, de inclusão". Para a jovem, o caminho é a informação. "A sociedade precisa ter informações, porque a falta dela gera o preconceito. E eu já passei por isso", desabafa.' #paratodosverem: Mayara Samora, jovem adulta de 26 anos, pele clara, aparece sentada. Ela tem cabelo escuro e cacheado, usa óculos de armação escura e veste blusa estampada em tom claro. O rosto está levemente inclinado. Ao fundo, há uma parede vermelha e um móvel com objetos decorativos, como vasos e flores. Reprodução/EPTV Olhar de piedade' A artesã Valdireny de Mira da Silva, de 52 anos, explica que tem uma doença rara conhecida como "ossos de vidro". Ela narra que só conseguiu completar o ensino fundamental na Educação de Jovens e Adultos (EJA) devido à falta de acessibilidade e às fraturas constantes na infância. "Frequentar a escola era assim, uma semana na escola e uma semana fora", recorda. Para a especialista em deficiência intelectual Karina Maldonado, além da falta de estrutura nas escolas, o capacitismo é uma barreira. "Enquanto a gente olhar para elas como coitadas, elas não vão conseguir fazer um trabalho efetivo", analisa. LEIA TAMBÉM Ser Acessível: saiba quais são os direitos de pessoas com deficiência na educação e como exigi-los Ser Acessível: entenda como atitudes comuns no dia a dia são capacitistas e impedem a inclusão Adolescente com paralisia cerebral narra como mudança para escola inclusiva impactou aprendizagem: 'Me sentia isolada' Dados do IBGE IBGE: metade das mulheres com deficiência em Campinas não concluiu o fundamental Metade das mulheres com deficiência em Campinas (SP) tem ensino fundamental incompleto ou nenhuma instrução, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O grupo corresponde a 17.454 pessoas do sexo feminino que têm 25 anos ou mais, de um total de 34.018. Os dados foram levantados por meio do Censo 2022 e divulgados em uma plataforma que reúne números relacionados às mulheres, lançada no fim de março de 2026. Para a pedagoga e fundadora do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e de Baixa Visão, Gisele Pacheco, o percentual é "assustador" e retrata os desafios das mulheres com deficiência, que precisam enfrentar não só o capacitismo, mas também o machismo. "As mulheres são consideradas mais vulneráveis na nossa sociedade. Quando se trata de mulheres com deficiência, a vulnerabilidade se torna ainda maior, dependendo do tipo de deficiência. Então, além da superproteção das famílias, há falta de informação de que essas mulheres podem se tornar pessoas produtivas na sociedade", disse Pacheco, que tem deficiência visual. "As mulheres acabam se sentindo mais vulneráveis e as famílias dessas mulheres também sentem que elas são mais vulneráveis na nossa sociedade", completou. 🔎 O que são capacitismo e machismo? Capacitismo é a discriminação, o preconceito e a opressão contra pessoas com deficiência. Manifestado em situações na qual a pessoa com deficiência tem a sua capacidade de fazer uma atividade subestimada por uma pessoa que não tem deficiência. O machismo é uma ideologia e conjunto de comportamentos que prega a superioridade masculina, baseada na discriminação e menosprezo contra mulheres. Já Glaucia Marcondes, coordenadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo), da Unicamp, citou que há o tabu da domesticidade feminina — papel historicamente construído que associa a mulher ao ambiente doméstico, cuidados familiares e tarefas do lar. "Mesmo em uma condição em que ambos [menina e menino] têm deficiências, é muito mais provável que as famílias vejam a condição das meninas como algo muito mais vulnerável e exposta à violência do que os meninos. Isso é uma questão de gênero, né? De como a gente vê a fragilidade, a exposição e o medo", disse. #paratodosverem: Gisele Pacheco, mulher adulta, pele clara, cabelo escuro e curto, aparece em uma fotografia antiga, em ambiente interno claro, durante uma cerimônia de formatura. Ela veste beca preta e usa um capelo preto na cabeça. Gisele Pacheco segura, com as duas mãos, um diploma azul aberto, parcialmente apoiado sobre o corpo, com o rosto levemente voltado para a esquerda. Ao fundo, atrás dela, há três bandeiras dispostas em suportes verticais: a bandeira do estado de São Paulo, a bandeira do Brasil e uma terceira bandeira, de Americana (SP), cidade onde ela se formou Arquivo pessoal Acima de 50% De acordo com os dados do IBGE, Campinas tem 34.018 mulheres com 25 anos ou mais que têm alguma deficiência. Dessas, 17.454 não completaram o ensino fundamental ou não têm instrução — o número representa 51,3% do total. Além disso, 4.409 não terminaram o ensino médio, 7.783 completaram o ensino médio ou não finalizaram o ensino superior e 4.372 concluíram o ensino superior. Essas informações estão reunidas na plataforma "Mulheres no Censo 2022", lançada com o objetivo "facilitar o acesso da sociedade às informações e servir de base para análises, pesquisas e políticas públicas baseadas em evidências". Ainda em Campinas, o percentual de homens com deficiência que têm ensino fundamental incompleto ou sem instrução é de 48,7%. O cenário se estende às pessoas do sexo feminino com deficiência em Sumaré (SP), Indaiatuba (SP), Hortolândia (SP) e Americana (SP), que completam os cinco municípios mais populosos da região de cobertura do g1 Campinas e Região. Todas essas cidades têm percentuais acima de 50%. Gerações e barreiras De acordo com Marcondes, muitas das mulheres que integram a estatística são mais velhas — com mais de 35 anos —, já que "o olhar mais inclusivo" para as pessoas com deficiência começou a ser discutido nas últimas duas décadas, principalmente no sistema educacional. "Hoje você tem leis que lidam com essa inclusão, mas muitas gerações de crianças acabaram indo para instituições especializadas, que não tinham vagas para todos ou nem todas as famílias tinham condições. Era um problema crônico de acessibilidade à educação", comentou. Pacheco, que tem 43 anos, viveu isso na pele. Ela contou que, embora tenha recebido estrutura familiar, o que colaborou para conseguir se formar em Pedagogia, muitas vezes ficou sem material no período escolar. "Aí a gente contava com a ajuda de uma rede de apoio permanente, que são os colegas de classe, para ditar o que está na lousa. Contava também com a ajuda do professor para trazer o material de uma forma mais resumida", lembrou. A pedagoga acredita que ainda há muitas barreiras para as pessoas com deficiência, independentemente de serem homens ou mulheres, conseguirem se formar: Falta de acessibilidade física (ausência de rampas e elevadores, por exemplo); Barreiras arquitetônicas (prédios não adaptados); Acessibilidade atitudinal (eliminação de preconceitos e estereótipos); Falta de materiais; Falta de preparo de profissionais, como professores e diretores, nas escolas. Segundo ela, esses desafios atrapalham o rendimento e a permanência desses alunos no ambiente escolar, sobretudo as mulheres. "Acaba fazendo com que as mulheres desistam também de frequentar as escolas, né? Elas ficam naquela: 'ah, mulher precisa ficar em casa' e aprendem os afazeres domésticos. Então, elas muitas vezes ficam em casa, ajudam nos cuidados com irmãos", ponderou. "É importante que os nossos governantes comecem a ter um outro olhar em relação a essa realidade. Comecem a pensar um pouco mais nessas pessoas, na vulnerabilidade dessas mulheres com deficiência", cobrou. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas