Metanol: Unicamp aponta falta de antídotos no Brasil e cobra revisão de política federal

Fomepizol é o antídoto mais indicado para intoxicações causadas pelo metanol O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp apontou, em coletiva no fim da manhã desta terça-feira (30), que o Brasil não tem estoque suficiente de antídotos para tratar casos de intoxicação por metanol. Segundo o orgão, tanto o fomepizol quanto o etanol puro estão em falta. O Centro aponta que o uso do fomepizol é mais eficiente e a substância é de mais fácil administração, mas não faz parte da política nacional de antídotos toxicológicos criada no final de 2023. Entenda abaixo. Segundo o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do estado de São Paulo, até a noite da segunda-feira (29) foram confirmados seis casos de intoxicação. Outros dez estão em investigação, e incluem quatro pacientes jovens que passaram mal após consumir gin comprado em uma adega na Cidade Dutra, na Zona Sul da capital, em 1º de setembro. A Unicamp informou que, no final de 2023, houve um caso de intoxicação por metanol em que a suspeita era de comsumo de álcool combustível, mas isso não foi confirmado. Essa é a primeira vez que o CIATox registra casos com bebida adulterada. LEIA TAMBÉM Governo de SP e PF divergem sobre suspeita de envolvimento do PCC em adulteração de bebida com metanol Intoxicação por metanol: veja o que se sabe e o que falta saber Órgão cobra política federal de antídotos Na coletiva, o CIATox explicou que cobra, junto da Associação Brasileira de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Abracit), a revisão da política de antídotos no Brasil. O Centro aponta que o uso do fomepizol é mais eficiente no tratamento de intoxicações por metanol e é mais fácil de administrar. A substância considerada equivalente é o etanol puro e, na falta dele, a vodca ou outro destilado - sempre administrados em hospital. Atualmente, não há estoque do etanol para tratar casos do tipo e o fomepizol não está incorporado ao SUS, segundo o Centro. A importação da substância pode ser feita de forma emergencial pela Anvisa, mas o CIATox avalia que os antídotos deveriam estar disponíveis no SUS de forma permanente. A previsão do Centro é de que o número de intoxicações continue aumentando. Unicamp cobra revisão de política de antídotos pelo governo federal Início das investigações De acordo com o CIATox, a suspeita começou quando o hospital do Grajaú acionou o Centro no dia 1º de setembro. Ao todo, nove casos foram atendidos por telefone pelo Centro: um de São Bernardo do Campo um de Limeira todos os outros da capital, sendo um óbito em um hospital municipal de São Paulo Desses casos, em seis foi identificado o metanol, enquanto nos outros foi identificado o ácido fórmico, que aparece no organismo depois de um tempo da metabolização da substância. Além disso, seis casos tiveram indicação para hemodiálise, que foi realizada em quatro pacientes. Um dos casos não conseguiu passar pelo procedimento pela gravidade do quadro, e em outro paciente o hospital achou que a hemodiálise não era necessária. Mortes e casos confirmados Um dos jovens, Rafael dos Anjos Martins Silva, está internado há quase um mês na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em decorrência da contaminação. No boletim de ocorrência, obtido pelo g1, é descrito que ele começou a passar mal, vomitou e teve fortes dores abdominais após ingerir a bebida. A princípio, ele acreditou que eram sintomas de ressaca, até que começou a gritar que estava cego. Outra vítima é Rhadarani Domingos, que relatou ao Fantástico que ficou cega após beber três caipirinhas de vodca em um bar no Jardim Paulista, área nobre da capital. Na noite desta segunda, ela deixou a UTI, mas segue internada sem previsão de alta. O governo estadual ainda confirmou três mortes relacionadas a intoxicação por metanol. As vítimas são: Homem de 58 anos, morador de São Bernardo do Campo; Homem de 54 anos, morador da capital paulista; Homem de 45 anos. O local de residência está sendo investigado. Ainda conforme o governo, outra morte, de um homem com histórico de etilismo crônico, está em investigação, pois não se sabe como ocorreu a intoxicação. Outro caso foi descartado. O que é o metanol O metanol (CH₃OH) é uma substância altamente inflamável, tóxica e de difícil identificação. O produto é um tipo de álcool simples, incolor e inflamável, com cheiro semelhante ao da bebida alcoólica comum. A substância tem diversas aplicações legítimas na indústria. Ele é usado na fabricação de formaldeído (o famoso formol), ácido acético, tintas, solventes e plásticos, e está presente em produtos como anticongelantes, limpa-vidros e removedores de tinta. Também já foi utilizado como combustível em carros de corrida e pequenos motores, mas em condições seguras e controladas. No Brasil, uma das principais funções do metanol é servir de matéria-prima para a produção de biodiesel, em um processo químico chamado de transesterificação. Fora disso, ele não deve ser comercializado diretamente para consumo humano nem adicionado em grande escala a combustíveis comuns. Riscos e tratamento Unicamp detalha casos de intoxicação por metanol em SP Segundo o CIATox, como o Metanol é um álcool, os sintomas são parecidos com o de bebidas alcoólicas normais. Porém, a pessoa pode apresentar sintomas mais graves e mais fortes, como alteração na visão e até sintomas respiratórios. Alguns exames iniciais ajudam a identificar a intoxicação, como a acidez do sangue. Já o tratamento depende do tempo de exposição, com foco no suporte ao paciente, correção do sangue ácido e uso de antídoto. Também há indicação de hemodiálise em casos graves pra tirar o metanol e o ácido fórmico do sangue. O Centro aponta que uma pequena quantidade de metanol pode ser tóxico. Bebidas adulteradas, contendo etanol e metanol são perigosas, porque o etanol retarda o efeito do metanol. Porém, não é possível saber se a bebida é adulterada durante o consumo, só se descobre depois que os efeitos aparecem. O metanol não se destina ao consumo humano — e é altamente tóxico Adobe Stock VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.
