
Em um marco histórico para a diplomacia e a economia global, os blocos do Mercosul [1] e da União Europeia [2](UE) assinaram, neste sábado (17), o aguardado acordo de livre comércio. A formalização do tratado ocorre após uma jornada de 26 anos de intensas negociações e foi viabilizada pela ratificação do Conselho Europeu no último dia 9. O passo dado hoje consolida uma aliança que abrange mais de 700 milhões de pessoas e representa um dos maiores trunfos comerciais da década.
A vitória política e o papel decisivo da Itália
A aprovação no Conselho Europeu exigia uma maioria qualificada de pelo menos 15 dos 27 países membros. O apoio da Itália foi o fiel da balança, garantindo o quórum necessário e isolando a resistência liderada pela França. Ao lado dos franceses, apenas Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria votaram contra o Mercosul, alegando riscos aos seus setores agrícolas. Contudo, o bloco opositor não atingiu o peso populacional de 35% necessário para o veto, permitindo que o tratado avançasse para a assinatura formal.
Com a rubrica deste sábado, o texto segue agora para o Parlamento Europeu. Nesta etapa, a ratificação final depende apenas de uma maioria simples dos parlamentares. Se aprovado, o Mercosul iniciará um processo de integração sem precedentes, eliminando gradualmente os impostos sobre 91% das exportações vindas da Europa ao longo dos próximos 15 anos.
Benefícios econômicos e redução de 4 bilhões de euros em tarifas
A Comissão Europeia projeta que este seja o maior acordo já firmado pelo bloco em termos de desoneração. A previsão é de uma economia superior a 4 bilhões de euros (cerca de US$ 4,7 bilhões) anuais em impostos de exportação. Para os países do Mercosul, a contrapartida será a abertura de 92% do mercado europeu para seus produtos em um prazo de até dez anos.
Principais pontos do intercâmbio comercial:
Carne Bovina: A UE abrirá cota de 99 mil toneladas métricas com tarifas reduzidas.
Laticínios: O Mercosul permitirá a entrada isenta de impostos de 30 mil toneladas de queijos europeus.
Minerais Críticos: O acordo facilita o acesso da Europa ao lítio sul-americano, reduzindo a dependência estratégica em relação à China.
Produtos Agrícolas: Haverá redução tarifária para vinhos, destilados, aves, açúcar e leite em pó.
Proteções ambientais e o fundo de 6,3 bilhões de euros
Apesar do otimismo, o pacto ainda enfrenta o crivo de grupos ambientalistas e produtores rurais europeus. A organização "Amigos da Terra" classificou a medida como "devastador para o clima", citando riscos de desmatamento na Amazônia. Para mitigar essas preocupações, a Comissão Europeia assegurou que não haverá flexibilização nos padrões de segurança alimentar e introduziu um mecanismo de salvaguarda que permite suspender o acesso preferencial do Mercosul caso ocorra uma explosão desordenada de importações.
Para acalmar os agricultores locais, especialmente os franceses, a UE anunciou um fundo de crise de 6,3 bilhões de euros. Esse montante será destinado exclusivamente ao apoio econômico de produtores europeus que enfrentarem dificuldades com a nova concorrência sul-americana. Com isso, o bloco busca harmonizar as normas de produção e garantir que o livre comércio não desestabilize a soberania alimentar do continente.
Próximos passos para o Mercosul e a UE
A partir de agora, o foco se volta para as capitais dos países membros e para o Parlamento Europeu. A expectativa é que o processo de implementação comece ainda em 2026, iniciando o cronograma de queda tarifária. Para o Mercosul, o acordo é visto como uma oportunidade única de diversificar mercados e atrair investimentos de alto valor agregado, posicionando a América do Sul como um parceiro preferencial da economia verde e tecnológica europeia.
[1] https://abcdoabc.com.br/mercosul-acordo-ue-desafios-contabeis-empresa/
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Europeia