
O Governo de São Paulo deu um passo decisivo para compreender a profundidade do déficit habitacional [1] no estado. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SDUH), através da CDHU, oficializou a contratação da Fundação Seade para conduzir um diagnóstico atualizado e minucioso sobre a falta de moradias.
Este levantamento substituirá as diretrizes do antigo Plano Estadual de Habitação (2012-2023). A previsão é que o estudo completo seja finalizado até 2028, mas os gestores públicos terão acesso aos primeiros resultados já em 2026. Essa antecipação é vital para corrigir rotas e direcionar recursos para onde a carência é mais crítica.
Tecnologia no combate ao déficit habitacional
A grande inovação deste contrato reside na metodologia. Pela primeira vez na história da gestão paulista, o cálculo do déficit habitacional integrará duas bases de dados massivas: o Censo 2022 e as informações do Cadastro Único (CadÚnico [2]).
Essa fusão de dados permite uma granularidade inédita. Não se trata apenas de saber quantas casas faltam, mas de entender quem precisa delas. O estudo utilizará mapeamentos georreferenciados para localizar assentamentos precários e áreas de risco com precisão cirúrgica, descendo à escala municipal e intramunicipal.
Identificar as condições de inadequação dos domicílios é fundamental para enfrentar o déficit habitacional com inteligência. O levantamento vai categorizar o perfil das famílias e cruzar essas informações com vulnerabilidades urbanas, sociais, econômicas e ambientais.
Foco em grupos vulneráveis
O diagnóstico não será genérico. A análise detalhada das necessidades habitacionais fará recortes sociais específicos para garantir que políticas públicas atendam quem mais precisa:
Idosos;
Pessoas com deficiência (PCDs);
Populações indígenas;
Comunidades quilombolas.
Essa estratificação aproveita a futura divulgação dos microdados do Censo 2022, que permanece como a principal fonte oficial para detalhamento territorial no Brasil.
Dados alarmantes e mudanças demográficas
O cenário atual exige rapidez. Indicadores anteriores já apontavam um déficit habitacional de aproximadamente 1,2 milhão de domicílios, além de outros 3,2 milhões em situação de inadequação.
São Paulo possui hoje 44,4 milhões de habitantes. Embora 97% vivam em áreas urbanizadas com ampla cobertura de serviços básicos, como água e esgoto, a desigualdade persiste. Dados da própria Fundação Seade indicam que 3,6 milhões de pessoas ainda vivem em favelas e comunidades.
Outro fator que impacta diretamente o cálculo do déficit habitacional é a mudança na estrutura das famílias. O estado registrou um crescimento médio anual de domicílios de 2,3% desde 2010, totalizando 19,6 milhões de residências em 2022. No entanto, o perfil mudou:
Famílias menores: Média de 2,8 moradores por casa.
Moradores solitários: 3,8 milhões de domicílios (19,4% do total) têm apenas uma pessoa.
Investimento e planejamento futuro
A escolha da Fundação Seade para atualizar os números do déficit habitacional baseia-se em sua experiência de 40 anos na análise de dados socioeconômicos. A instituição desenvolverá uma solução técnica sob medida, mobilizando equipes multidisciplinares.
O projeto receberá um investimento de R$ 3,3 milhões e terá duração de 36 meses. As etapas incluem análise, validação metodológica e produção de indicadores que subsidiarão o Plano de Desenvolvimento Urbano e Habitacional (PDUH 2040).
O sucesso do PDUH 2040 e dos Planos Plurianuais (PPAs) depende diretamente da qualidade dessas informações. Apenas com dados robustos será possível reduzir, de forma sustentável e planejada, o déficit habitacional em São Paulo.
[1] https://abcdoabc.com.br/deficit-habitacional-e-recorde-no-pais/
[2] https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-dados-do-cadastro-unico-cadunico