
Sabe aquela sensação de que o trânsito na Região Metropolitana de São Paulo [1] piorou? Não é sensação, é realidade. No comparativo entre o primeiro trimestre de 2025 e 2026, o congestionamento médio saltou de 227 km para 310 km somente na cidade de São Paulo. Um aumento de 36% segundo os dados da CET [2].
Mesmo considerando fatores como obras viárias em andamento, a redução dos dias de trabalho híbrido e a retomada de eventos, o ponto central da discussão é outro: a necessidade de investimento integrado no transporte público.
Sem uma alternativa estruturada, confiável e eficiente, o automóvel e a motocicleta continuam sendo as escolhas predominantes, e o resultado aparece diretamente nas ruas.
Grande ABC entra na conta
(Arquivo/Agência Brasil)
Esse cenário não se limita ao município de São Paulo. Quando ampliamos o olhar para o Grande ABC, região estratégica da Região Metropolitana, com forte presença industrial e elevada dependência de deslocamentos pendulares, o efeito é ainda mais sensível.
Municípios como Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul vivem uma dinâmica intensa de viagens intermunicipais, especialmente no eixo casa –trabalho.
A conexão com a capital, somada à limitada oferta de transporte de média e alta capacidade, sobretudo sobre trilhos, faz com que o automóvel e, cada vez mais, a motocicleta assumam protagonismo nesses deslocamentos.
Resultado dos congestionamentos
O resultado é um sistema viário pressionado não apenas internamente, mas também nos principais corredores de ligação com a capital, como a Via Anchieta e a Avenida dos Estados. O aumento do tempo de viagem, a perda de previsibilidade e a elevação dos custos logísticos passam a fazer parte da rotina da população e das empresas da região.
Mas há um ponto que, muitas vezes imperceptível, fica em segundo plano nessa discussão: a qualidade do ar.
Uma das formas mais didáticas de traduzir esse impacto para o público é a equivalência com o consumo de cigarros. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo indicam que a exposição média à poluição atmosférica na capital pode ser equivalente a fumar entre quatro e cinco cigarros por dia, dependendo do nível de exposição individual.
Em situações específicas, como uma hora no trânsito, essa equivalência pode chegar a até cinco cigarros. Esses dados reforçam que o impacto da poluição veicular não apenas persiste, mas se mantém em níveis elevados ao longo dos anos.
Não por acaso
Essa piora não ocorre por acaso. O aumento da frota circulante, o crescimento nas vendas das motocicletas, muitas vezes com menor controle de emissões, além das condições de tráfego congestionado, contribuem diretamente para a elevação de poluentes como o material particulado fino (PM2,5), os óxidos de nitrogênio (NOx) e os compostos orgânicos voláteis, que, na presença de luz solar, esses dois últimos geram o ozônio, altamente tóxico à saúde.
No Grande ABC, esse quadro tende a ser ainda mais crítico em função da combinação entre atividade industrial e tráfego intenso, formando um ambiente propício à concentração de poluentes, sobretudo em corredores viários saturados.
Ou seja, o aumento de 36% nos congestionamentos não representa apenas perda de tempo. Ele carrega consigo um custo invisível, porém significativo, relacionado à saúde pública, à produtividade e à qualidade de vida da população.
Soluções isoladas deixam de ser uma opção viável
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Diante desse cenário, insistir em soluções isoladas deixa de ser uma opção viável. A Região Metropolitana de São Paulo, incluindo o Grande ABC, demanda uma abordagem integrada, que envolva: expansão e qualificação do transporte coletivo de média e alta capacidade com apoio tecnológico; integração tarifária e operacional entre municípios; incentivo à mobilidade ativa em deslocamentos de curta distância; uso intensivo de dados para gestão da demanda de pessoas; e políticas consistentes de desestímulo ao uso excessivo do automóvel.
Os aplicativos de transporte entenderam essa deficiência do transporte coletivo estruturante e “surfam” na demanda de pessoas que não utilizam o transporte público. Desde o dado publicado em 2025, na Pesquisa Origem-Destino do metrô, o número de viagens por aplicativos superou o total de viagens da CPTM na Região Metropolitana de São Paulo, o que não há nada a se comemorar em termos de ações coletivas.
Sem esse conjunto de ações coordenadas, a tendência fica clara: mais veículos nas ruas, mais congestionamento, mais sinistros de trânsito e mais poluição.
E, no limite, de quatro a cinco “cigarros invisíveis” sendo consumidos todos os dias por milhões de pessoas, sem que elas sequer percebam ao longo do dia. Mas a conta chega no futuro, infelizmente.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)
Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC [3]. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC [4] da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
[1] https://abcdoabc.com.br/campanhas-de-educacao-no-transito-funcionam/
[2] https://www.cetsp.com.br/
[3] https://abcdoabc.com.br/
[4] https://www.fee.unicamp.br/pesquisa/decom/