Com 10,3 mil obras extraviadas, bibliotecas da Unicamp têm livro atrasado há 23 anos e leitor suspenso até 2059

Com 10,3 mil obras extraviadas, bibliotecas da Unicamp têm livro atrasado há 23 anos e leitor suspenso até 2059

Bibliotecas da Unicamp têm livro atrasado há 23 anos e leitor suspenso até 2059 As bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) contabilizam 10,3 mil obras extraviadas e registram situações inusitadas no sistema de empréstimos. De acordo com dados enviados a pedido do g1, o acervo tem um livro com devolução atrasada há 23 anos, além de um leitor suspenso até 2059. Embora os extravios representem menos de 2% do acervo, que soma 601.665 livros em 30 bibliotecas, o cenário evidencia um desafio: muitos desses exemplares estão esgotados no mercado editorial e não podem ser repostos, o que compromete o acesso à informação, segundo o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU). Atrasados desde 2002 São considerados extraviados os livros não devolvidos há mais de três anos ou que foram declarados perdidos. Nesses casos, eles recebem baixa patrimonial. Além deles, há outros 2.756 atrasados que as bibliotecas continuam cobrando na tentativa de recuperá-los. O empréstimo mais longo sem devolução é datado de 17 de dezembro de 2002, quando uma mesma leitora retirou três livros. Dois títulos eram exemplares únicos em toda a universidade e, até hoje, nunca voltaram para as prateleiras da instituição: "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter", de Mário de Andrade; "Primeiras estórias", de Guimarães Rosa; "Gramática da Língua Portuguesa", de Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante. A suspensão até 2059 se refere a um empréstimo de 13 de novembro de 2011 da obra "Concreto: ensino, pesquisas, realizações", de Geraldo Cechella Isaia e Alexandra Passuelo. A biblioteca deu baixa por extravio e bloqueou o leitor atrasado. Suspensões e conscientização No total, 1.621 usuários permanecem suspensos. Ainda segundo a instituição, são aplicadas duas penalidades diferentes e elas estão relacionadas ao impacto que o atraso provoca sobre outros usuários. 3 dias de suspensão para cada dia de atraso: quando não há reserva sobre o livro, isto é, não há outros interessados na obra atrasada; 10 dias de suspensão para cada dia de atraso: quando há reserva ativa para o livro e outras pessoas estão interessadas nele. Não há aplicação de multa, uma vez que o objetivo não é punir, mas, sim, proteger o acervo e educar quem depende dele. A Unicamp destaca que mantém um sistema contínuo de cobrança e acompanhamento de empréstimos em atraso, com o envio de notificações aos e-mails cadastrados, além de contatos telefônicos, como forma de orientar os usuários e regularizar as pendências. "É importante destacar que o SBU adota uma abordagem que alia gestão administrativa, educação do usuário e responsabilidade social. Nesse sentido, são realizadas campanhas solidárias anuais, nas quais os usuários podem substituir a penalidade de suspensão por uma penalidade alternativa, por meio da doação de alimentos não perecíveis, produtos de higiene, entre outros itens". Prejuízo além do financeiro De livro com 800 anos a autógrafos de Oswald de Andrade, conheça Biblioteca de Obras Raras da Unicamp (Bora) Marcelo Gaudio/g1 A instituição ressalta que o prejuízo decorrente de atrasos prolongados e extravios não pode ser mensurado apenas em termos financeiros. Embora seja possível estimar valores com base no preço médio de mercado de obras similares, pontua que o principal dano está nos âmbitos acadêmico, científico e patrimonial. “Por esses motivos, o SBU entende que o maior prejuízo não está apenas no custo de reposição, mas na perda de acesso, de oportunidade acadêmica e de patrimônio público, reforçando a importância de políticas de conscientização, educação do usuário e uso responsável do acervo”, destaca. Ainda de acordo com a Unicamp, essa realidade impacta de forma mais acentuada as áreas de humanidades, nas quais grande parte da bibliografia é composta por títulos fora de catálogo, de circulação extremamente limitada ou provenientes de edições antigas, muitas vezes insubstituíveis. Como exemplo, destaca o título “Obras de Luiz de Camões: precedidas de um ensaio biographico, no qual se relatam alguns factos não conhecidos da sua vida; argumentadas com algumas composições inéditas do poeta, pelo visconde de Juromenha”. "Trata-se de uma publicação histórica, editada em Lisboa pela Imprensa Nacional entre 1860 e 1869, cujo valor acadêmico, histórico e patrimonial torna sua reposição bastante difícil. Casos como esse evidenciam a importância da preservação do acervo, do uso responsável dos materiais e da devolução dentro dos prazos", explicou o SBU. Recentemente, a atual Coordenadoria Geral da Universidade (CGU) atendeu a uma demanda histórica das bibliotecas e viabilizou a destinação de recursos específicos para a aquisição de obras esgotadas, por meio de sebos e outras fontes especializadas. As bibliotecas da Unicamp em números Dos mais de 600 mil livros impressos que compõem o acervo, 433.559 exemplares estão disponíveis para empréstimo domiciliar para a comunidade interna da Unicamp, como professores e alunos. Outros 168.106 títulos não podem ser emprestados, mas estão liberados para consulta nas próprias bibliotecas. Esse conjunto abrange livros de referência, materiais vinculados a coleções especiais e obras raras, que, em razão de suas características e de seu valor informacional ou patrimonial, não podem deixar o acervo. Nesse número, há, também, materiais em processo de encadernação ou restauração, além dos indisponíveis por extravio. De livro com 800 anos e pele de bezerro a um dos primeiros mapas do Brasil: os 'tesouros' da biblioteca de 100 mil obras raras na Unicamp Unicamp divulga lista de obras de leitura para os próximos vestibulares Saiba por que Unicamp vai se desfazer de 9 mil livros e qual o destino das obras A comunidade externa da Unicamp também pode consultar todos os livros disponíveis. No entanto, os empréstimos para quem não é da universidade estão restritos ao acervo da Biblioteca Comunitária, que conta, atualmente, com 5.830 obras à disposição. Além disso, o SBU conta com outros materiais informacionais, como dissertações, teses, CDs, DVDs e mapas, por exemplo, que totalizam 509.491 itens. O público também pode consultar 469 mil e-books, 949 periódicos e 73 bases de dados. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.