
Após a cerimônia de despedida dos bondes promovida pelo então prefeito Faria Lima, em 1968, tudo indica que esse meio de transporte histórico [1]está prestes a retornar às ruas de São Paulo. O que jamais deveria ter deixado de operar, agora a cidade entende ser essencial para a reurbanização do centro de São Paulo, área degradada, que há décadas não consegue se reerguer.
Há um século, o bonde era o principal meio de transporte da cidade, com mais de 700 quilômetros de trilhos, alcançando inclusive os pontos mais distantes da época, como a Avenida Santo Amaro, na zona sul. Com o crescimento urbano e o espraiamento da cidade nas décadas de 1960 e 1970, os bondes passaram a ser vistos como obstáculo à circulação de carros e ônibus, especialmente em áreas para as quais ainda não havia trilhos.
Última viagem do Bonde Camarão, 27 de março de 1968 (Arquivo/ CMTC)
Transporte integrador ou exclusivo?
O que deveria ter um transporte integrador entre ônibus, bonde e automóveis, se tornou exclusivamente na modalidade rodoviária. O projeto do metrô, lançado em 1966, só foi inaugurado em 1974 e, mesmo após cinco décadas, a extensão atual de trilhos não chega à metade do que existia na era dos bondes. Somados com os trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), é menos que 2% das vias urbanas da cidade.
Mas tudo indica que estará de volta, com um investimento que gira em torno de 3,7 a 3,8 bilhões de reais para a construção de duas linhas no centro da cidade, o que representa, em média, apenas um terço do custo por quilômetro da construção do metrô, quando feito na modalidade subterrânea.
Novo bonde: pequeno no tamanho, ambicioso na função
Consulta pública do novo bonde será no mês de agosto deste ano e pretende, em duas linhas circulares de apenas 12 quilômetros de extensão total, passar por pontos turísticos no Centro de São Paulo, como o Theatro Municipal, Sala São Paulo, Mercado Municipal, Biblioteca Mário de Andrade, entre outros atrativos. Embora o novo bonde tenha um papel diferente do que teve no passado, poderá funcionar como um importante conector para a micromobilidade e simbolizar um recomeço de algo que nunca deveria ter sido extinto.
Previsto para voltar em 2027, exigirá uma intervenção urbana representativa, já que toda a alimentação será feita de forma subterrânea e com controles semafóricos que privilegiam a circulação dele.
Conectividade e futuro urbano
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O novo Bonde São Paulo será integrado a cinco terminais de ônibus, nove estações de metrô e duas estações da CPTM, garantindo ampla conectividade e acessibilidade para os paulistanos [2]e, ao que tudo indica, um número representativo de turistas na região central, que faz parte do projeto de revitalização da área — há décadas um desafio para o poder público.
E por que não uma conexão aos bicicletários? Quanto mais opções, mais eficiente está a cidade no princípio básico dos deslocamentos.
A previsão é de atender cerca de 134 mil pessoas por dia, uma demanda ainda modesta diante da capacidade potencial de viagens, mas com grande possibilidade de crescimento, que pode aumentar significativamente pelo novo veículo, seja pelos empregos e educação ofertados pela região, seja pelo turismo, que tende a crescer.
Claro que o novo bonde não se assemelha aos últimos, mas com uma nova roupagem chamada de Veículo Leve sobre Trilhos – VLT.
Que volte o bonde! E que faça parte da mobilidade sustentável, com menos carros e mais transporte público coletivo de qualidade [3]! Em um ambiente histórico que tem tudo para ser resgatado.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
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Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC [4]. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp [5]. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
[1] https://abcdoabc.com.br/tuk-tuks-no-app/
[2] https://abcdoabc.com.br/teleferico-na-brasilandia-mobilidade-em-foco/
[3] https://abcdoabc.com.br/transporte-publico-nas-cidades-brasileiras/
[4] https://abcdoabc.com.br/
[5] https://unicamp.br/